AMIGO  COMIGO 
ANA MARIA MACHADO 


O que  ter um amigo de verdade? Que prazeres e deveres resultam 
das relaes de amizade? Podemos nos enganar a respeito do 
amigo? O que sentimos quando o amigo se esquece de ns? Por que 
certas pessoas tm tanta dificuldade em fazer amizades? O que 
mantm viva a amizade? 
Em Amigo  comigo, de Ana Maria Machado, a histria ficcional d 
elementos para discutir o tema da amizade. 
Se a amizade  um dos bens maiores de que podemos desfrutar, por 
que no  fcil cultiv-la? Por que o interesse, a inveja, o desejo de 
poder se sobrepem a ela? Essas questes remetem  importante 
tarefa de identificar e clarificar valores para que, por meio do 
desenvolvimento do juzo moral, cada um possa decidir por si 
mesmo em situaes de conflito. 

APRESENTAO 

Alguma vez na sua vida voc j quis comprar tudo o que aparece na 
tev, sem se preocupar com quem vai pagar? J teve problemas com 
amigos fofoqueiros ou j delatou algum na escola? J mentiu, j 
"passou cola" em prova? J foi acusado injustamente de uma coisa 
que no fez? J enfrentou um valento e obedeceu a suas ordens 
com medo de apanhar dele? J teve cimes dos pais, inveja de 
algum, foi humilhado e se viu sozinho e com medo do fracasso? 
Parabns! Se voc respondeu no a todas essas perguntas, voc no 
tem motivo pra ficar orgulhoso (at porque, nem deve entender o 


que  orgulho). Voc deve ser o mais novo robozinho da indstria 
ciberntica. 
Parabns! Se voc respondeu sim a algumas dessas perguntas, voc 
no tem motivo nenhum pra ficar envergonhado. Voc  humano. 
E ser humano  ter dvidas.  saber que o Bem e o Mal (assim, com 
letras maisculas) no existem de maneira solta, no ar, como se 
fossem passarinhos. So coisas difceis de compreender. Difceis de 
definir no dia-a-dia. Mais difcil ainda  saber optar quando 
enfrentamos uma situao que nos obriga a tomar uma posio e a 
gente no tem muita certeza se vai agir certo ou errado naquela 
hora. 
Essas decises difceis contribuem para a formao da conscincia 
moral. Verdade: a gente aprende a formar uma opinio sobre o que  
certo e errado. No nascemos sabendo isso nem podemos jogar nas 
costas dos outros (pais, professores, sacerdotes, parentes, amigos 
mais velhos) a responsabilidade de decidirem por ns. 
Antigamente, no tempo dos avs, era comum que o patriarca da 
famlia olhasse feio e pronto! Os filhos calavam a boca, se 
encolhiam, obedeciam em tudo... Ser que por isso os filhos sabiam 

o que era certo ou errado? Ou s agiam por medo? 
Hoje, tem muita gente que acha que o jovem e a criana j tm de 
saber sozinhos o que  certo ou errado. E se um adolescente faz uma 
bobagem,  culpa dele. H tambm quem acuse a prpria escola, 
como se ela tivesse obrigao de ensinar moral para os alunos. 
Sabe de uma coisa? A escola tem sim uma grande obrigao moral 
para com seus alunos. Mas no como um substituto daquele vov 
autoritrio. No para oferecer o nico lugar onde os jovens podero 
descobrir certezas no seu comportamento. Na verdade, a escola 
deve ser o espao de discusso de temas morais. Lugar onde se 
possam colocar situaes de conflito para se discutir e refletir sobre 
valores, para que cada um chegue a uma concluso prpria, 
autnoma, sobre o que deveria ser feito. Mesmo porque, apenas 
voc ser responsvel pela sua deciso. 


Para enriquecer essa discusso, a Editora Moderna lanou Est na 
Minha Mo! Viver Valores. O nome j diz tudo: est na sua mo, 
leitor, optar por uma soluo para questes muito srias, que envolvem 
temas morais. 
A srie  constituda por pequenos romances inditos, escritos por 
autores experientes da literatura infanto-juvenil, e apresenta personagens 
da sua idade, que enfrentam verdadeiras barras: delao, 
injustia, consumismo, inveja, amizades desfeitas, insegurana, 
agressividade... Puxa! Quanta coisa esses personagens tiveram de 
enfrentar, e quantas dvidas a respeito da melhor deciso... 
Vamos compartilhar dos seus problemas? Ao discutir sadas, poderemos 
perceber que o dilogo entre pessoas interessadas na 
construo de valores como justia, liberdade, dignidade, respeito  
vida  o caminho para nosso aperfeioamento e meta para um 
mundo mais justo. 

Mareia Kupstas e Maria Lcia de Arruda Aranha 

SUMRIO 

1. Minha melhor amiga 
2. Amigo  pra essas coisas 
3. Bate-papo e bate-bola 
4. Mo amiga 
5. Amigo  coisa pra se guardar 
6. Amigo do rei 

1. MINHA MELHOR AMIGA 
No sei muito bem como  que eu posso mostrar a entonao desse 
assim. Talvez devesse acrescentar um ponto de exclamao no final. 
Escrever tudo inclinadinho, para lembrar a boca torta com que ele 
pronuncia a palavra. E mais: ir variando o tamanho das letras, e 
ainda repetir o /' e o m do final, para mostrar como a voz dele vai 
subindo e se prolongando num espanto s. E a sobrancelha 
levantada que acompanha a pergunta. Um ar de critica, reprovao, 

o mais profundo desprezo. 
 Voc vai sair assiiimmm?! 
Pode parecer esquisito escrever uma palavra desse jeito. Mas isso 
no  nada, comparado com a esquisitice ambulante que eu fico me 
sentindo toda vez que estou prontinha para sair, j me despedindo, 
e ouo o comentrio assassino. 
Porque  um comentrio, por mais que parea ser s uma pergunta. 
Mas  tambm uma forma de assassinato, j que mata toda a minha 
animao, por melhor que seja o programa que me espera. Muitas 
vezes, um programa que levei dias esperando. Para o qual eu me 
preparei no maior capricho. 
 s olhar para o monte de roupa em cima da minha cama depois 
que acabei de me vestir, e j d para ter uma idia de como eu 
experimentei blusa e cala, provei saia e vestido, tentei ver como 
ficava esta ou aquela pea, decidir se uma cor combinava com outra. 
No, usando esta cala, no posso vestir uma blusa folgada. Com 
este top no d, vou sentir frio, e nenhum casaco combina com a cor 
dele. Este outro aperta um pouco o peito e faz a barriga parecer 
maior do que . E se eu trocar de cala? Esta aqui, no, chama a 
ateno para um pouquinho de celulite que posso ver bem no alto 
da coxa, apesar de todo mundo dizer que sou magrela e que menina 
da minha idade quase nunca tem celulite. Mas meu espelho me diz 
diferente. Quer dizer, eu acho. Afinal, tenho a obrigao de observar 

meu prprio 
corpo mudando, 
antes de todo 
mundo perceber. 
Com sorte, antes 
mesmo de que o 
espelho mostre. 
E  sempre 
assim. Vou 
pensando essas 

coisas, 
conversando 
comigo mesma, 
s vezes at 
resmungando e 
xingando em voz 
alta. E vou 
puxando cabides 
do armrio, 
revirando 
gavetas, botando 
e tirando roupa, 
jogando tudo 
pelo avesso em 
cima da cama. 
Vou vendo 
aquele bolo de 
roupa crescendo 
e vai me dando 
uma aflio: eu sei que devia arrumar tudo antes de sair, para no 
ter que enfrentar aquela montoeira de pano quando chegar da festa 
com sono e querendo dormir. Mas no adianta. A essa altura, 
sempre, j est quase no horrio que combinei. Mais uma vez, o 


negcio  deixar como est, fechar aporta do quarto para ningum 
ver quando eu sair (e torcer para no abrirem) e depois, quando 
voltar cansada e quiser ir direto para a cama, jogar tudo no cho. 
Porque, antes de sair, j sei que no vai dar tempo. E ainda tenho 
outras preocupaes. Fico olhando para o relgio a todo instante, 
aflita porque ainda no comecei a me maquiar. Nem vi que jeito vou 
dar neste cabelo, que, para variar, formou a maior onda, deve dar 
para algum surfar. E preciso ver se descubro um sapato legal no 
armrio de minha me, principalmente quando vou usar uma saia 

 porque ento no quero ir de tnis e acabo sempre saindo com a 
mesma sandlia. 
Em resumo: levo sculos para resolver a roupa, anos para consegui 
um cabelo mais ou menos satisfatrio, horas me maquiando para 
parecer bem natural e quase sem maquiagem, como todas as revista 
aconselham. E, no fim de toda essa produo, quando me olho no 
espelho antes de apagar a luz e sair do quarto, quando tenho sorte o 
estou num dia feliz, acho que at que no ficou to mal assim, pode 
se que desta vez eu no me sinta a mais desajeitada e horrorosa da 
turma; A passo pela sala para me despedir dos meus pais e ouo: 

 Voc vai sair assimmm?! 
Quem me conhece, j sabe quem falou.  sempre ele, o R. Me 
irmo Rodolfo, na verdade Luis Rodolfo, dois anos mais velho do 
que eu. Especialista em me botar para baixo e fazer eu me sentir um 
lixe 
 Assim, como? Est uma gracinha... Minha me tenta salvar 
minha noite. 
Em geral, nesse ponto, o R comea a argumentar que minha blusa 
est decotada demais, que a saia  justa demais, o vestido  grudado 
demais, ou transparente demais. Sei l, tudo  demais  mas nunca 
daquele jeito maravilhoso e incomparvel que evidentemente j 
virou elogio, de quem suspira e diz: Puxa, ela  demais! 
No, com o R no  nada disso.  sempre um sinal de que passa 
dos limites e estou com uma roupa absurda demais. To demais que 

as pessoas (no sei quais, mas ele sempre diz "as pessoas") vo 
achar que eu sou o que no sou. 
Mas, desta vez, ele no tem o que dizer. No estou nada demais. S 
posso  estar de menos. Vou sair com uma roupa supercomportada 
Vesti at um camiso xadrez de meu pai, por cima da blusa e da 
cala, largo, como se fosse um casaco. 
Est  ridcula. Ainda bem que no est indo comigo, ia ser maior 
mico. Parece at um desses caras que vo a baile funk. S falta uma 
cala enorme e o bon com a aba para trs  fulmina o R. -Vai 
acabar criando confuso. 
D uma risadinha, para aproveitar a pausa, e acrescenta, como ; 
estivesse explicando: 

 Desse jeito, periga os caras confundirem a Tti com algum c 
uma galera rival. 
Pronto! Deu certo! J estou me sentindo um lixo, feia, com jeito de 
garoto. Assim nenhum menino vai olhar para mim. 
E nem da tempo para trocar de roupa agora. O pai da Dri j chegou 
para me apanhar. J buzinou l embaixo umas trs vezes, e ele fica 
todo bravo quando a gente se atrasa. 
Entro no carro meio esbaforida. 


 Puxa, Tti, voc est demais! Essa roupa ficou superlegal. Devo 
estar mesmo um horror. Aposto que a Dri percebeu de cara 
que eu estou precisando de umas palavrinhas de apoio e est 
dizendo essas coisas s para me consolar. E continua: 
 A gente devia ter combinado de voc ir se vestir l em casa e me 
dar uns toques. At liguei para saber com que roupa voc ia, mas o 
telefone s dava ocupado. 
 Era meu irmo, com uma daquelas namoradas dele  expliquei. 
 Imaginei  disse a Dri.  Mas fiquei insistindo, porque queria 
pelo menos te pedir uns palpites. 
 Para mim? E eu l posso dar palpite em roupa dos outros? Logo 
eu, este lixo? 

 Claro que pode, Tti, que idia! Todo mundo sempre se veste 
igual. Parece at uniforme. Voc, no. Pode at repetir a mesma 
camiseta ou cala, mas sempre consegue inventar um jeito diferente 
de se arrumar. Eu estava lendo sobre isso outro dia na Ternura. Tem 
gente que  assim, lana moda, Inventa coisas que da a pouco todo 
mundo est usando.  um dom especial, um talento prprio. Voc  
assim. Voc tem estilo, Tti.  assim que se chama, menina: estilo. 
Grande Dri! Adriana, minha melhor amiga. No sei como eu sobreviveria 
sem ela. Quer dizer, hoje em dia. Porque na verdade, at que 
vivi um bom tempo sem nem saber que ela existia. Afinal de contas, 
faz menos de dois anos que somos amigas. 
Para falar a verdade, antes a gente nem se conhecia. Ela nem 
morava aqui em Palmeiral. Mas, tambm, eu era uma pirralha, s 
tinha aquelas amiguinhas bobas de criana. Quando conheci a Dri 
 que nesse tempo todo mundo ainda chamava de Adriana   
que fui vendo como pode ser uma amiga de verdade. 
Desde a primeira vez em que a gente conversou, num dia frio do 
inverno, cheio de vento e nublado, deu pra saber que a gente se 
entendia. 
Foi nas frias de julho. Eu tinha ido at o calado na beira da praia 
bem em frente  minha rua, para ver se o R estava jogando futebo 
porque minha me queria falar com ele. Ventava tanto que no havi 
ningum. S aquela menina que eu nunca tinha visto, sentada na 
areia De blusa de l, casaco e at gorro! No primeiro momento, 
pensei que era uma figura esquisita. Mas ai ela sorriu e at achei 
simptica, quand< me perguntou se eu no queria brincar com ela. 

 De qu? 
 U, de qualquer coisa. Do que voc quiser. Eu no estoi mesmo 
fazendo nada. 
 No posso, tenho que voltar para casa. S vim at aqui porqw 
minha me me mandou procurar meu irmo. Tenho que ir dizer a 
ele que no encontrei. 

Na verdade, eu achava que no tinha nada a ver, isso de um menina 
meio esquisita e estranha me chamar pra brincar com ela. A menina 
foi levantando e dizendo: 

 Ento vou com voc. Depois que voc falar com a sua me, gente 
brinca. 
Foi exatamente o que aconteceu. Ela foi para casa comigo, acabo 
ficando para almoar, brincamos o dia inteiro. A essa altura, eu j 
ner costumava mais brincar, j no estava mais na idade dessas 
criancice: Preferia ouvir msica, ver vdeo, jogar algum jogo, ler... 
Mas, alm de ur bichinhos de pelcia, ainda tinha alguns jogos e 
brinquedos no quartc Com a companhia de minha nova amiga, fui 
me animando. Comeamos a brincar de teatro, a nos maquiar e 
vestir umas coisas diferentes. 
Foi muito divertido. Nem vimos o tempo passar. Adriana s volto 
para casa depois que anoiteceu. 
Minha me comentou: 
 Meio largada, essa menina... Se no lhe pedisse para telefonar pr 
casa na hora do almoo, ela ia ficando... Assim, sem pedir a 
ningum, agora s foi embora porque eu disse que j estava tarde. 
Era mesmo, pensei. Lembrei que a menina tinha vindo comigo ser 
avisar nenhum adulto. Alis, no havia nenhum adulto com ela na 
praia. 
Talvez minha me tivesse razo, e ela fosse mesmo meio largada, 
sem ningum que se importasse muito com o que fazia. Mas 
tambm podia ser que s fosse mais independente. Se 
continussemos a nos ver, eu a ficar sabendo. 
Mas ser que ainda amos nos encontrar? Eu no sabia onde 
Adriana morava. No tinha combinado nada com ela para nos 
vermos outro dia. Nem tinha dado meu telefone. Bom, sempre 
podia tentar a praia outra vez... 
Mas nada disso foi preciso. 
No dia seguinte, bem cedo, eu ainda estava meio dormindo quando 
minha me abriu a porta do meu quarto e disse: 


 Tatiana, aquela menina est a... 
 Que menina? 
 Aquela de ontem, a Adriana. Quer que eu mande voltar mais 
tarde ou voc j est levantando? 
Dei um pulo da cama  disse: 
 Pode dizer a ela que j estou indo. Ou ento, me, mande ela vir 
at aqui. 
 No. Se quiser ir brincar com ela, trate de se levantar. Quando 
cheguei na sala, minha me j tinha sado para o trabalho e Adriana 
estava sozinha na frente da televiso, vendo um gato correr atrs de 
um rato num desenho animado. E estava dando uma risadinha 
tima, meio entrecortada. A cena era divertida e eu dei uma 
risadona. Num instante, estvamos as duas s gargalhadas, 
passando manteiga no po e nos servindo de chocolate e leite frio. E 
mais uma vez, passamos juntas o dia inteiro. 
Ficamos inseparveis o resto das frias. Soube que ela tinha se 
mudado para a nossa rua naquela semana e morava no prdio em 
frente. Vinha de outro bairro e no conhecia mais ningum por ali. 
Os pais tambm saam cedo para trabalhar e ela ficava o dia inteiro 
sozinha com a empregada, que no se incomodava se ela sasse. Por 
isso, ela praticamente se mudou l para casa. Ainda mais porque 
minha me s faltou adotar a Adriana, com aquela mania de achar 
que ela vivia largada. 
 Coitadinha, ningum liga para o que ela faz, onde est, com 
quem anda... Um absurdo! Essa menina precisa de ateno, de 
carinho, coitada.  muito carente... 
Minha me tambm trabalhava, sempre trabalhou fora,  analista de 
sistemas, vive num escritrio cheio de computador. Mas quase 
sempre vinha almoar em casa. E, mesmo quando no vinha, ficava 
telefonando e controlando de longe. No me deixava ir em casa de 
gente que ela no conhecia. Se eu quisesse ir a algum lugar, tinha 
que pedir antes a ela ou a meu pai, explicar onde era, com quem eu 
ia, a que horas voltava, deixar o nmero do telefone de onde estava. 



Enfim, no me dava tanta liberdade como a me da Dri, que eu 
achava o mximo. 
Quando as aulas comearam no segundo semestre, ainda tnhamos 
mais um motivo para viver grudadas: a Adriana foi para o meu 
colgio. No somos da mesma turma, nunca fomos. Agora, eu estou 
na 6-A e ela na 5-C. Mas passamos a nos encontrar no recreio, 
amos e voltvamos juntas da escola, muitas vezes acabvamos 
almoando uma na casa da outra. E como eu fui fazer dana na 
mesma academia que ela, que entrou no meu curso de Ingls e no 
mesmo horrio, a gente ficou ainda mais unida. Foi nessa poca que 
ela comeou a ser minha melhor amiga. 
Eu nunca tinha tido uma melhor amiga assim, de verdade. Tinha 
um monte de amigas no colgio, s vezes a gente saa no fim de 
semana. Ou estudvamos juntas para alguma prova. Alm disso, 
nas frias, quando iamos para o stio da minha av, eu encontrava 
minhas primas e era sempre superdivertdo. Mas uma grande 
amiga mesmo, que me colocasse em primeiro lugar em tudo na vida 
dela, e com quem eu soubesse que podia contar para tudo... ah, isso 
era uma novidade. Uma novidade maravilhosa, alis. 
A Dri j tinha bem mais prtica de amizade. No bairro onde ela 
morava antes, no outro colgio, j tinha tido uma grande amiga, a 
Rafaela. Contou que elas eram muito ligadas, quase como a gente 
estava sendo agora  mas um pouquinho menos. Ainda bem, 
porque eu acho que amizade igual  nossa nunca ia poder existir. 
Nem podia ter existido antes. Mas a Rafaela fez uma coisa horrvel 
com a Adriana, e justamente na hora em que ela mais precisava. Por 
isso, elas deixaram de ser amigas. 
At hoje me lembro da cara da Dri, chorando, quando me contou o 
que tinha acontecido. Um choro muito misturado, de tristeza e de 
raiva. Pois o que houve foi que a Rafaela, que sempre tinha sido sus 
amiga, deu uma grande festa de aniversrio quando fez 10 anos. 
Sabe aquelas festas em clube, que tm tudo, at sorteio de brindes 
legais, DJ e discoteca? Pois foi uma festa dessas. A Dri tinha ajudado 


a Rafaela a pensar em todas as coisas que devia haver numa festa, e 
elas fizeram uma lista. E mais outra lista, com o nome de todos os 
meninos que deviam ir  as meninas a gente sempre sabe que me 
acaba dando um jeito de convidar todas, at as chatas que a gente 
prefere dispensar. Mas Adriana e Rafaela trataram de organizar 
tudo o que puderam. Deram palpites nas roupas que cada uma ia 
vestir. Escolheram juntas as msicas que iam tocar, o lugar da festa, 

o melhor dia, tudo! 
 claro que, como sempre, tiveram que mudar umas coisinhas. O 
pai da Rafaela cortou umas idias, porque disse que daquele jeito a 
festa ia custar um dinheiro, tinha que ser num lugar mais barato... 
E a me dela disse que o dia escolhido por elas  o sbado logo 
depois do aniversario, lgico  no era bom, porque elas deveriam 
estar estudando para as provas da semana seguinte. Jogou para uns 
trs sbados adiante, quando j estariam de frias. Mas, de qualquer 
jeito, a festa foi o mximo! Todo mundo ficou falando dela, 
contando como foi maravilhosa, como todo mundo se divertiu, 
como tinha tanta comida gostosa, tanto menino bonito, tanta msica 
legal. S que, no fim das contas, a Dri no foi convidada! J pensou? 
Quando ela contou, chorava: 
 Acabei ficando de fora da festa que eu mesma ajudei a organizar! 
E bem na hora em que eu mais precisava... 
 Por qu?  perguntei, meio aflita, sem saber o que fazer ao ver 
os olhos de minha amiga se enchendo de lgrimas. 
 Porque eu estava me mudando de l, saindo do colgio onde 2u 
estudei a vida toda (o Santa Rita era comove fosse a minha casa...). 
Eu estava trocando de turma, perdendo todos os colegas e amigos... 
Drecisava de consolo, de amizade. E ela me jogou fora, como se eu 
io servisse para mais nada, no tivesse mais lugar na vida dela! 
Vquela vaca! 
 No, no perguntei por que voc estava precisando. Perguntei  
)or que ela fez isso...  insisti. 

 E eu l sei? Deve ter achado que no precisava mais de mim, j 
|ue eu ia mesmo me mudar para longe... Meu pai no ia mais dar 
carona para ela ir ao colgio como fazia todo dia... Eu no ia mais 
chamar para ver vdeo na minha casa, ou convidar para passar o 
fim de semana com a gente l em Santa Helena. Ento eu no servia 
para mais nada... Interesseira,  o que ela ... E eu que pensava que 
ela fosse minha amiga... Tambm, estou pouco ligando... 
Adriana falava, dava de ombros, fazia uma carinha de desprezo. 
Mas dava pra ver que estava ligando, sim. E muito! As lgrimas 
escorriam pelo rosto e num instante ela estava soluando. Eu 
tentava consolar. Passava o brao em volta do ombro dela, alisava o 
cabelo, falava com carinho: 
 Esquece isso tudo. Sou sua amiga, Dri, de verdade... Voc no 
precisa da Rafaela. Deixa ela pra l. 
Furiosa, ela xingava: 
 Aquela vaca loura! Tambm, nunca mais falei com ela. Cansou 
de telefonar e eu no atendi. 
 Ela ainda teve a coragem de telefonar?  perguntei, espantada. 
 Um monte de vezes. Mas tambm, quando minha me me 
obrigou a atender, desliguei com o dedo e fiquei s fingindo que 
estava falando. 
 Mas o que foi que a Rafaela disse?  insisti, curiosa. 
 No sei, nem quero saber, e tenho raiva de quem sabe. Devia era 
querer pedir perdo, inventar uma desculpa qualquer. Mas no tem 
perdo. Uma coisa dessas no d pra desculpar. Nunquinha. Nunca 
mais quero ver a cara dela na minha frente. 
 Claro que no d  concordei.  No chamar a melhor amiga 
para o aniversrio! 
Meu tom de voz dizia muito mais do que isso. Era uma espcie de 
promessa de que eu nunca faria nada parecido, jamais. Um 
juramento de amizade fiel e eterna. Como eu tinha certeza de que a 
nossa seria. 

2. AMIGO  PARA ESSAS COISAS 
A festa no foi nada do outro mundo, mas deu pra se divertir. 
Apesar de umas garotas meio chatas l do colgio. Principalmente a 
Dbora, que se acha o mximo e se joga pra cima dos meninos de 
um jeito que eles acabam sempre ficando com ela. Sabe o tipo? Na 
hora de cumprimentar ela sempre d beijos. Fala meio mole. D 
risadinha a toda hora, como se as coisas que o menino estivesse 
dizendo fossem sempre as mais divertidas do mundo e ele fosse o 
supra-sumo da inteligncia. S falta babar de admirao. De vez em 
quando, faz um ar de cansao, de dengo, e deita a cabea no ombro 
ou no colo do garoto que est ao lado. E pra se despedir ento!... 
Leva horas se despedindo de um por um, dizendo mais uma 
coisinha no ouvido, toda cheia de segredinhos. Detesto a Dbora!  
uma idiota, ignorante, sem assunto e toda problemtica  j repetiu 
de ano duas vezes e foi expulsa do outro colgio de onde veio. E 
ainda fica rindo de quem estuda. 
Foi ela quem comeou a dizer que sou "metida a falar difcil", s 
porque usei uma palavra que eu tinha lido (nem lembro qual foi, na 
certa alguma coisa como esse "supra-sumo" ai em cima) e ela nem 
sabia o que queria dizer. Quando ela est por perto, sempre sei que 
a qualquer hora algum pode rir de mim. Ou vo fazer grupinhos 
para cochichar, olhar para mim, e sairem de perto. Morro de raiva! 
J chorei muito por causa dela. 
Mas antigamente era muito pior. Antes de eu ser amiga da Adriana. 
Jma festa dessas, se eu no estivesse com a Dri, podia ter sido um 
lorror. Eu ficava meio perdida, jogada s feras. Mas, com minha 
amiga, is coisas ficam diferentes. Posso ter companhia e sair de 
perto, como ;e no estivesse ligando a mnima. Amigo  pra essas 
coisas. 

Foi o que fizemos dessa vez. Fomos para outro lado, mesmo 
deixando para l a maioria dos meninos que a gente conhecia, l do 


colgio. Tudo em volta da Dbora, feito mosca em volta de doce 
melado. 
At acabamos vendo um garoto bonitinho, meio isolado, no terrao. 
Est bom, no era exatamente bonitinho. Mas tinha um olhar 
simptico. 
Numa hora em que a Dri foi atrs de um garom com uma bandeja 
de refrigerantes, ele at puxou conversa comigo. 


 Estava o maior calor l dentro... 
 ...  concordei. 
 Por isso  que eu vim aqui pra fora... 
 ... est mais fresco. 
 Voc  amiga da Carla? 
 Sou. A gente estuda na mesma escola. E voc? 
Eu sabia que ele no estudava l. Se estudasse, eu j tinha visto. No 
ia deixar de reparar num garoto com um olhar daqueles. E, pelo 
menos de vista, conheo todo mundo do Anita. Afinal de contas, 
no  um colgio to grande assim e eu j estou l h um tempo. 
 No. Sou primo dela. 
 Onde  que voc estuda? 
 No Cruzeiro. 
Fiquei na maior dvida. Falo? No falo? Sempre  assunto para 
continuar a conversa: falo! 
 Que coincidncia! Meu irmo tambm estuda l... 
 Quem  seu irmo? 
 O Lus Rodolfo, no sei se voc conhece... 
No, no conhecia, ainda bem. Se fosse amigo dele, era um 
desastre. 
Quando a Dri voltou com dois copos de refrigerante, s tinha dado 
para descobrir que ele era dois anos mais velho que eu e se chamava 
Diego. Apresentei os dois, aproveitei para dizer meu nome, mas a 
conversa no foi adiante. No sei se ele achou a Dri com cara de 
pirralha (ela  mais nova mesmo e, como  baixinha, parece mais 
criana ainda), se j tinha se cansado da conversa ou se ficou sem 

jeito de conversar com duas meninas ao mesmo tempo. Mas num 
instante pediu licena e entrou. Sumiu. A Carla mora numa casa 
mesmo, de dois andares. E acho que o Diego deve ter se metido em 
algum lugar l em cima, provavelmente com o Vtor, que  irmo da 
Carla, lindo e mais velho, mas no deu as caras na festa nem um 
minuto. Se o Diego era primo dele, devia ser intimo da casa. 
S que na festa tinha muita gente mais. E ns duas danamos, 
conversamos, andamos de um lado para o outro vendo as pessoas. 
No tinha ningum muito interessante. De menino, que  o que 
interessava mesmo. Estavam divididos em dois grupos  fora o 
Diego, completamente desenturmado, mas que logo sumiu, como 
eu contei. Os mais velhos eram aquele bando de moscas em volta da 
Dbora. Os outros  uma pirralhada  comearam a fazer batalha 
de pipoca, a jogar batata frita uns nos outros, acabaram at fazendo 
concurso de embaixada (com sanduche), quicando pozinho 
redondo no alto do p como se fosse uma bola de futebol, no meio 
da maior gritaria, todos contando para ver quem conseguia mais 
vezes sem deixar cair. E aquela coisa se desmilngindo toda com os 
chutes. No consigo ver que graa menino acha nessas porcarias. 
Um nojo! 
Mas  claro que uma festa sempre d o maior assunto para conversa. 
No dia seguinte, quando eu estava tomando caf, a Dri me 
telefonou. Tnhamos um monte de coisa para comentar da vspera. 
S que era domingo, meus pas estavam em casa no meio de um 
mar de jornais espalhados na sala, e minha me foi logo dizendo: 

 V se no fica a vida inteira nesse telefone. 
Mal a gente tinha comeado a falar, meu pai passou por perto, 
mostrando o relgio no pulso esquerdo e batendo no mostrador 
com um dedo da mo direita  sinal para no demorar. Eu j sabia, 
no ia mesmo levar um tempo falando. 
Mas, logo em seguida, ele estava de volta: 
 Tatiana, vocs j esto h mais de quinze minutos nesse papo 
furado. 

Acabei tendo que desligar. Ser que ningum entende que a Dri  
minha melhor amiga e a gente tem milhes de coisas para 
conversar? Na casa dela  diferente, os pas no ficam toda hora 
cortando a alegria da filha no telefone. 

Essa  outra coisa que eu posso reclamar com minha amiga: 

 Puxa, meus pais so um p no saco! Pra tudo eles querer horrio. 
Se eu cismar de levantar s onze horas num domingo, no posso. 
No adianta falar que  domingo, no tenho aula, posso fazer que 
quiser. Quer dizer, deixar eles at deixam, mas a mesa do caf no 
fica posta at mais tarde, e tenho que me virar sozinha... 
 Voc podia dormir aqui todo sbado  props ela.  Aqui em 
casa no tem disso. Tem sempre uma empregada que no est de 
folga no domingo. Ningum se preocupa com horrio de acordar. 
Eu at tentei. Na primeira vez foi bem divertido. Mas na segunda 
vez, acordei sozinha s oito. Estava na casa dos outros, no podia 
me levantar e comear a mexer nas coisas. No ia acender a luz, 
pegar um livro, ir at a sala e ligar a TV... Fui ao banheiro, escovei 
os dentes experimentei arrumar o cabelo numa poro de penteados 
novo; prendi, fiz trana, soltei de novo... Olhei no relgio e ainda 
nem eran nove horas... Voltei para a cama e fiquei deitada 
esperando, olhando o quarto e pensando na vida. Sculos depois, 
olhei as horas outra vez, no tinham passado nem quinze minutos. 
Se estivesse na minha casa, j 
tinha levantado, estava na cozinha ajudando minha me a preparar 
o caf ou na mesa com todo mundo (n; certa, o R implicando 
comigo mas a essa altura nem fazia mai ; era divertido...). E se 
ningum tivesse levantado, eu j podia ter pegado um leite na 
geladeira feito uma torrada com manteiga ou gelia, e na certa 
estava bem refestelada no sof da sala continuando a ler meu livro, 
acompanhando o que a famlia March ia vivendo, ai, uma 
maravilha! No sei se voc j leu Mulherzinhas... Se leu, no me 
conte c final. Se no leu, pode ir procurar,  timo!  a histria de 

quatro irms  at 
fizeram um filme, 

Adorveis 

mulheres.Pois 

naquela vez em que 

dormi na casa da 

minha amiga 

Adriana, fiquei de 

manh deitada na 

cama extra do quarto 

dela, esperando 

algum acordar, e 

imaginando o que a 

Jo March ia fazer em 

seguida, no prximo 

captulo do livro que 

eu tinha deixado em 

casa. 

Quando estou no 

meio de uma leitura 

boa, muitas vezes 

fico assim. Custo a 

sair da histria 

quando fecho o livro. 

E fico querendo comentar com todo mundo.  uma pena que a Dri 

no goste de ler. Mas se gostasse, a  que a gente levava mesmo 

meu pai ao desespero! Iamos ficar ainda com muito mais assunto 

para conversar e passar horas ao telefone. 

De qualquer jeito, no faz mal. A gente  amiga, mas uma no  

obrigada a gostar de tudo o que a outra gosta. 

Por exemplo, ela curte filme de terror, e eu no suporto. Cada vez 

que vamos ver vdeo na casa dela, j sei que vamos ter que assistir a 

umas coisas feito Pnico, Meia-noite de sexta-feira, ou A maldio do 


morto-vivo. Para mim,  uma perda de tempo. Na hora,  tudo to 
idiota que fica at engraado e bem que pode ser divertido  quer 
dizer, de vez em quando, um filme s. Vendo mais de um, d pra 
sacar que  tudo igual. Os mesmos sustos, as mesmas caras 
horrorosas. Mas depois no sobra nada, no fica nada de bom na 
memria, entende? 
At pelo contrrio. De vez em quando, no meio da noite, quando 
acordo para beber gua ou ir ao banheiro, fico lembrando daquelas 
imagens idiotas e no consigo mais dormir, fico um tempo sem 
querer apagar a luz. No  exatamente medo, mas  uma coisa 
desagradvel, como se minha pele estivesse prontinha para ter um 
arrepio a qualquer momento e eu ficasse s esperando um susto 
para dar um grito. 
Sei que  ridculo me sentir assim, mas no consigo controlar. De 
dia, posso ver que  divertido. Mas no meio da noite, e sozinha, bate 
uma coisa esquisita. 
Tentei explicar isso  Adriana, mas ela achou graa. No faz a 
menor idia do que sinto. Mas eu tambm no consigo imaginar 
como ela pode achar que livro  uma chatice, por mais que ela diga 
que d sono, que no v a menor graa numa poro de letrinha 
sujando um papel, que sempre pula um monte de palavra que no 
entende, ou se distrai, esquece o que aconteceu antes, sei l...  que 
somos diferentes, e pronto! 

Em outras coisas tambm. Logo que nos conhecemos e ela foi l 
para o Anita (o nome do meu colgio  Anita Garibaldi), no se 
conformava porque eu queria ficar jogando vlei depois da hora da 
sada. 

 No sei que graa voc acha nisso. Francamente, Tti... Ficar toda 
suada numa quadra de cimento, esperando algum dar uma 
cortada e te acertar uma bola... Tem coisas muito mais divertidas na 
vida! 
 No  isso, Dri...  um jogo superempolgante. 

 Empolgante coisa nenhuma! Tem que se atirar no cho para 
pegar a bola. Quando erra, todo mundo vaia e reclama. Quando 
aceita, outro jogador erra logo em seguida e estraga todo o seu 
esforo... Voc quase se matou, para nada. Uma idiotice. 
Mas eu adorava vlei. No ia deixar de jogar s por causa dela. 
S depois  que descobri que no era nada daquilo. A Adriana s 
reclamava porque no sabia jogar. O time de vlei do Santa Rita (o 
antigo colgio dela) era to bom que ela nunca tinha vez. Com o 
tempo  e as aulas de Educao Fsica do Alcides  foi 
aprendendo e hoje at gosta. De vez em quando ela me diz: 
 Se no fosse por sua causa, Tti, eu nem jogava vlei... 
Acho que  verdade. E tambm sou obrigada a reconhecer que, se 
no fosse por causa dela, eu talvez nem danasse. 
Eu sempre tive a maior vontade de danar bem, achava o mximo! 
Mas no sabia danar e preferia dizer que no gostava. Nunca 
ningum tinha me ensinado. Quando eu tentava, me achava dura, 
esquisita, uma coisa muito diferente daquelas moas leves e lindas 
que a gente v danando na televiso, umas gracinhas. E bem diferente 
das garotas que fazem sucesso, como a Dbora, sou obrigada a 
reconhecer. 
Bem que eu j tinha tentado, e muitas vezes. Quer dizer, s quando 
tinha muita gente danando ao mesmo tempo e eu achava que 
ningum ia reparar numa desajeitada ali no meio da multido, todo 
mundo se sacudindo ao som da msica. Mas at mesmo a Cris, que 
era minha melhor amiga antes da Adriana, no conseguia disfarar 
o riso: 
 Ai, Tti, como  que pode? Voc no leva mesmo o menor jeito... 
Chamava as outras meninas: 
 Gente, olha s a Tti danando... 
Eu ficava furiosa, mas fingia que no me importava. Elas riam, 
come-cavam a mostrar: 

  assim, olha... 
 Solta o corpo, mexe bem a bunda... 

 Faz assim com o p. 
 Balana desse jeito... Olha aqui... 
Eu tentava, mas ficava toda preocupada em ver bem onde  que ia 
botar o p, como ia mexer o brao ao mesmo tempo... no 
conseguia! Elas riam. Eu ficava toda chateada, louca para ser igual a 
elas. Tinha que reconhecer que a Cris tinha razo: devia parecer um 
rinoceronte no salo, como ela disse uma vez. 
A Cris sempre teve essa grande qualidade  a franqueza. Sempre 
me deu toques incrveis sobre os meus defeitos. Eu at admirava. 
Doa, mas admirava. Tinha que reconhecer que ela estava sendo 
honesta, por mais furiosa que eu ficasse. E acho at que a minha 
raiva maior era por reconhecer essa franqueza e nem ao menos 
poder ficar com raiva.  uma grande qualidade, e muito rara. Eu 
tinha mesmo que admirar. Complicado, n? Mas era isso que eu 
sentia. 
Mais tarde, depois que conheci a Dri, um dia ela me disse: 
 Acho o maior barato esse teu jeito de se vestir diferente de todo 
mundo... 
E, de repente, esse comentrio parecia um arco-ris no cu. Ou um 
monte de sininhos tocando. Porque, de uma hora para a outra, 
como um raio que cai, ou uma luz que se acende na escurido, eu 
percebi que a franqueza da Cris era sempre de um s tipo: a sinceridade 
de mostrar meus defeitos e me botar para baixo. Mas, em 
muitos anos de amizade  afinal, ramos colegas desde o maternal 
, ela nunca tinha usado aquela franqueza para ver uma coisa boa 
em mim. Nunca! Sabe l o que  Isso? No era possvel que eu no 
tivesse uma nica coisa que merecesse ser elogiada! Ou, se eu tinha 
qualidades e a Cris no conseguia enxergar, era porque no era 
minha amiga de verdade... 
Claro, eu no sabia mesmo danar. Isso nem a Dri podia negar. E 
no negou. Mas na primeira vez em que me viu danar, no falou 
nada ia hora, nem na frente dos outros. 

Esperou uma tarde em que estvamos sozinhas na casa dela e 

props: 
-Que tal a gente danar um pouco? Eu no curto danar  me 
desculpei. 


 No  possvel, Tti!  superlegal!  a mesma coisa que algum 
dizer que no gosta de musica, ou no curte praia. 
 Mas eu no gosto mesmo. 
 No acredito, Tti. Todo mundo gosta.  uma das melhores 
coisas do mundo! Voc j viu bebezinho quando ouve musica? No 
fica se balanando? Pois ento,  isso! Danar  uma coisa natural, 
como andar ou correr. No tem essa de dizer que no gosta, no 
curte... 
  que no levo 
multo jeito, sabe? 
 Ento  falta de 
prtica. Tem que 
treinar. Vamos, eu 
lhe mostro... 
Escolheu um CD, 
ligou o som e 
comeou a me 
mostrar como era... 
No comeo, fiquei 
morrendo de 
vergonha. Mas 
depois a gente 
comeou a fazer isso 
sempre. Eu fui me 
animando. Descobri 
que muitas daquelas 
danas que o pessoal 
danava nas festas 

tinham uma coreografia que as meninas s sabiam porque 
treinavam antes, umas com as outras. Menino, no. Vai ver que  
por isso que eles-danam menos nas festas, tambm ficam com 
vergonha de no saber. A me da Dri gostava muito de sair  noite 
para danar. Aprendia os passos todos, treinava em casa, ensinava 
para a filha. Foi me ensinando tambm. 
Hoje eu me viro. Posso no ser a Madona, mas no pago mico. 
Acabei at entrando numa academia de jazz e dana moderna. Junto 
com a Dri. 

3. BATE-PAPO E BATE BOLA 
Interminaaaaavel. 
Meu pai diz que antigamente passava na televiso um anuncio de 
uma gilete que os caras garantiam que durava mais do que todas as 
outras porque era assim: interminaaaaavel. 


 Acho que a conversa dessas duas deve ser do tipo dessa gilete. 
Uma tagarelice interminaaaaavel  comentou ele no sei com 
quem, neio falando sozinho, depois de atender ao telefone.  L vai 
comear de novo. 
Nem reparou que eu j vinha entrando na sala, porque gritou l )ara 
dentro do corredor: 
 Tti, telefone! 
Em voz mais baixa, explicou: 
  a Adriana, claro. 
S mesmo implicncia de pai para chamar de tagarelice uma troca 
de idias entre duas pessoas que compartilham vrios interesses 

(puxa, linda caprichei nesse argumento, para dar uma resposta 
antes de atender, e ele nem se tocou). 
Mas  porque, na verdade, ele estava de sada. Teras e sextas  
assim, ele chega um pouco mais cedo, muda a roupa e sa correndo 
para jogar futebol  que eu tenho o respeito de no chamar de bate-
bola  com os amigos numa quadra de areia que eles fazem na 
praia, bem em 'ente  nossa rua. Fica um monte de gente no 
calado olhando. 
Ainda bem. Porque como minha me chegou na hora de sempre, a 
Dri e eu pudemos conversar mais  vontade. Deu para comentar as 
principais coisas que tinham acontecido no colgio, o novo corte de 
cabelo da Luana, o teste-surpresa de Matemtica na turma dela, o 
trabalho de grupo que o professor de Histria mandou fazer na 
minha turma, e mais uma poro de coisas. 
Eu sei que, se estivessem por perto, meus pais iam ficar reclamando: 
"Por que em vez desse bate-papo todo, vocs no partem para um 
bate-bola?" ele pergunta s vezes. "Vo se mexer, ao ar livre, 
praticar um esporte, em vez de ficar nesse tititi..." 
Ou ento ficam perguntando se a gente no teve tempo suficiente 
na escola pra botar o papo em dia. Mas no tivemos mesmo. 
Primeiro, porque  muito assunto. Segundo, porque no estamos 
juntas o tempo todo, a gente nem  da mesma turma... No d pra 
ficar conversando durante as aulas. Terceiro, e mais importante,  
porque algumas coisas so meio delicadas. No d pra falar com 
um monte de gente em volta, interrompendo a toda hora ou 
bisbilhotando. Sernpre pode ter algum ouvindo. E, pode no 
parecer, mas essa falta de privacidade pode acabar causando uns 
problemas srios. 
Hoje, o caso  que queramos comentar umas coisas da Cris. E no 
dava pra ser na escola. 
Voc deve estar lembrando dela. J falei que a Cris era minha 
melhor amiga antes da Adriana. Depois me toquei que ela s tem 
franqueza contra, nunca a favor. E me afastei um pouco. At mesmo 


porque fiquei conversando mais com a Dri. Mas gosto da Cris e 
continuo amiga dela. S que ultimamente ela deu pra implicar um 
pouco com a Dri. 
Nem sei se implicar  a palavra certa. E tenho certeza de que ela no 
faz por mal. Mas a Cris fala meio sem pensar, tudo o que vem na 
cabea. S que a maioria do que passa pela cabea dela  besteira. 
Quer dizer, na maioria das vezes, no  uma coisa agressiva, 
maldosa. Ela no quer prejudicar ningum.  uma pessoa legal, 
seria incapaz de fazer isso de propsito. Posso garantir. Mas  to 
irresponsvel que faz um estrago. E de vez em quando cria um 
clima meio estranho. 
Outro dia, por exemplo, teve uma reunio no auditrio do colgio, 
juntando vrias turmas. Era pra discutir um projeto de parceria que 
a gente desenvolve com a Escola Pblica Ana Nri, da Favela da 
Teimosia, que fica bem atrs do nosso colgio. Uma coisa que j 
dura anos. 

Tem um professor deles que  mestre de capoeira e vem dar aulas 
na nossa escola. Uma vez por ms, os alunos de l tambm vm e a 
gente faz uma roda conjunta,  o mximo! Por outro lado, ns nos 
comprometemos a ser responsveis por uma sala de leitura para 
eles. Ento todo ano fazemos umas campanhas para arrumar 
dinheiro, vamos a uma livraria, escolhemos livros, compramos, 
damos a eles, temos umas equipes que vo l uma vez por semana 
contar histrias para os pequeninos. E depois organizamos debates 
com os mais velhos sobre os livros.  muito legal mesmo e a gente 
tem conhecido um pessoal incrvel. 
Mas o caso  que nessa reunio surgiu uma idia de se ampliar o 
trabalho para incluir meninos de rua. Pronto! Na mesma hora, 
comeou todo mundo a falar ao mesmo tempo, ficou o maior 
debate. Alguns pontos levantados: 
Se isso no ia comprometer a nossa meta atual, que era de 
desenvolver em seguida um projeto de parceria em Informtica, 


aproveitando que o 
governo tinha dado uns 
computadores para o 
pessoal da Ana Nri. 
Se valia a pena correr o 
risco de trabalhar em 
vrias frentes e 
dispersar o esforo. 
Se a esta altura essa 
nossa parceria j no 
virou uma coisa s de 
amigos e estamos com 
essa animao toda 
porque estamos 
curtindo muito, e j 
nem  mais para ajudar 
algum. 
Se, na verdade, 

transformar 

solidariedade em 
amizade no  exatamente 
a melhor 
conseqncia desse 
projeto e o negcio  ir cada vez mais fundo nisso. 

Se, pelo contrrio, assim no estaramos deixando de lado querr 
mais precisa. 
Se, para tentar incluir meninos de rua, no Iramos precisar de um; 
ajuda mais especializada de adultos, alm dos professores  quer 
dizer assistentes sociais, essa coisa toda, porque, por mais que a 
gente queira no temos condies de sair pela cidade afora tentando 
juntar menor e abandonados... para fazer o qu? E se eles no forem 
abandonados e forem s pobres que esto pela rua brincando ou 
indo para algun lugar? Como  que a gente faz pra saber sem 


ofender? Fica vigiando pra ver onde eles dormem de noite? 
Pergunta? Meio ridculo, n? J imaginou: "Oi, desculpe, eu sou a 
Mariazinha, da Escola Anita Garibaldi, queria saber se voc  um 
legtimo menino de rua". 
Enfim, d pra imaginar como a tal reunio estava pegando fogo. C 
professores tentavam organizar, a coordenadora estava a ponto de 
mudar de nome (de tanto que no coordenava nada), os alunos 
todos davam palpites. 
Pois bem, enquanto o pau quebrava e de todo lado se ouvia fali em 
criana carente e no sei que mais, a Cris resolveu disparar: 

 O que  que voc acha, Dri? Podia ajudar muito, porque esse 
negcio de menor carente  com voc mesma, n? Por experincia 
prpria... 
O que vale  que a confuso era tanta que pouca gente ouviu. M a 
Adriana ficou com os olhos cheios dgua. Levantou de repente e 
saiu do auditrio. 
Eu ainda tentei dar uma bronca na Cris, mas ela comeou a 
justificar, como se tivesse feito o comentrio mais natural do mundo 
 Deixe de bobagem, Tti. No tem essa de vir me dar lio de mo 
s porque fui sincera. A sua me mesma vive dizendo que a Dri  
mu carente, coitadinha, que ningum liga pra ela. Todo mundo sabe 
que mesmo.  s uma brincadeira. Na vida precisa ter senso de 
humor, sabe. 
Achei melhor nem discutir. Fui atrs da Dri, que disfarava 
corredor, bebendo gua e dizendo que tinha um cisco no olho. 
Respeitei a vontade dela de no falar no assunto, mas eu sabia que o 
comentrio tinha machucado e fiquei muito chateada com a Cris. 
Na semana passada, ela aprontou outra, de tipo muito diferente, ara 
explicar, tenho que comear contando umas coisas de antes. Se no, 
nem d pra entender. E tenho que falar do Fbio. 
Eu acho o Fbio um nojo. Mas ele se acha lindo e gostoso, s porque 
anda numa turma de gatos. E, como vive no meio de uns meninos 
lindos, tem sempre menina em volta. S que ele nem desconfia que 

no  por causa dele,  por causa dos outros. Ou ento, desconfia 
sim, sabe perfeitamente, e usa os outros de isca, s para ficar com as 
sobras. Tem muita gente assim. At eu, que no tenho assim tanta 
experincia dessas coisas, j conheci alguns.  s reparar que a 
gente descobre. 
De qualquer jeito, o caso  que o Fbio  um horror. Um carinha 
metido a ser o mximo e, ainda por cima, um tremendo puxa-saco. 
Vive na casa da Carla, porque  todo amigo do Vtor, irmo dela  
esse, sim, um gatao! Mas deve nos achar umas pirralhas, porque 
nem olha pra ns. Bem o Fbio diz que  muito amigo dele. Acho 
que no  nada disso, s porque o pai do Vtor e da Carla  o Vc 
Bellini, sabe? Ele mesmo! vocalista do Razes Ocultas... Aquele 
louro de cabelo comprido e olhos azuis que toda hora aparece na 
televiso e nas revistas. Minha me disse que ele foi multo bonito e 
 excelente msico. Eu no sei, pra mim meio velho, no d muito 
para imaginar, mas pode ser. Quer dizer, at que d pra acreditar. 
Porque o Vitor deve ter puxado dele   bonito esmo, demais! Mas 
 um cara todo sossegado, bom aluno, tem uma morada firme, a 
Mantinha, da mesma turma dele... 
Enfim, voltando ao Fbio, tenho certeza de que ele nem  amigo de 
verdade do Vtor, quer s  ficar por perto para pegar o respingo do 
brilho do pai dele  aquela coisa de viver l, ficando ntimo dos 
outros artistas que sempre aparecem, ficam ensaiando, e toda hora 
pedem hora ele ajudar, ir buscar alguma coisa... 
Nem quero perder muito tempo falando do Fbio, s quero  contar 
da Cris. Do que falei, j deve ter dado pra voc imaginar a pea. 
Pois uma vez, alguns dias depois da festa que a Carla deu, o Fbio 
estava na sada do colgio com a Mareie e a Cludia (nem precisava 
eu r os nomes, elas so de outra turma e no vo ficar entrando 
nesta histria toda hora), e eles ficaram parados na calada 
conversando, enquanto no chegava a me da Cludia, que ia 
buscar a filha de carro. Como a Dri vinha saindo e justamente nesse 


dia o pai dela tinha dado uma carona para a Cludia ir ao colgio 
(ela mora pertinho da gente), foi natural que ela chamasse: 

 Oi, Adriana, quer uma carona para casa? Minha me no 
demora, j est chegando. 
E foi assim que, num carro apinhado de gente com quem ela no 
tinha nenhuma Intimidade, a Dri ouviu o Fbio dizer: 
 Ainda bem que a Carla no me convidou para aquela festa... 
 Mas eu pensei que o Vtor ia te chamar  disse a Mareie. 
 No, a festa no era dele. Era s daquela irm dele, com aquele 
bando de pirralhos. 
 Ah, por isso  que voc no foi... 
 Ainda bem que eu no tinha que ir. Mas no foi s por isso, eu ia, 
se quisesse. No preciso de convite pra ir l, eu sou da casa; como 
eles mesmos dizem. Mas aproveitei para no ir, dizendo que era 
melhor que ela ficasse  vontade l com os amiguinhos dela. J 
imaginou, ter que encarar a Carla? Falar com ela, essas coisas todas. 
Deus me livre, aquilo  um jaburu, parece uma bruxa, se algum 
encontrar no escurinho at tem um treco, morre de pavor... No d 
n? P, ela  a menina mais feia que eu j vi. 
A Dri at levou um susto, misturado com a vergonha de estar 
ouvindo aquilo. Mas ele continuava: 
 E tem mais! 
As outras fizeram um silncio, prestando ateno. Ele completou: 
 Vocs nem Imaginam, mas a Carla  muito fedorenta. Quando 
ela chega bem perto assim, a gente sente aquele cheiro de suor 
azedo, de mau hlito, sei l o que . No  assim um fedor forte, 
mas  aquela inhaca que no vai embora, sabe? D at enjo na 
gente, vontade de sair correndo. Acho que ela no toma muito 
banho... 
A Dri contou que achava que todo mundo sentiu o mesmo mal-
estar que ela, por estar ouvindo aquelas coisas. Deve ter sido, 
porque no banco da frente, no volante, a me da Cludia 
rapidamente puxou outro assunto, engrenou outra conversa e 

ningum falou mais nada sobre aquilo. Mas no dia seguinte, na hora 
do recreio, enquanto a Adriana me contava essa conversa, toda 
horrorizada, a Cris chegou e quis saber q0 que a gente estava 
falando. A Dri contou de novo, desde o comeo A reao da Cris foi 
igual  nossa. Ficou revoltada: 

 P, mas que carinha nojento esse Fbio! Vive metido na casa da 
Carla, diz que  como se fosse da famlia, e vem com uma baixaria 
dessas contra ela, em pblico... Fedorenta? Francamente, nunca 
senti cheiro nenhum. 
 Claro que no sentiu, Cris, nada disso  verdade. No mximo, 
pode ser que no use muito desodorante, ou use de uma marca que 
no funciona bem. Mas se houvesse mesmo algum cheiro, todo 
mundo ia sentir, no s o delicado nariz daquele porcalho do 
Fbio, evidente. E tem mais:  s olhar pra ela com ateno que a 
gente descobre que ela no  feia. De verdade. Pode parecer, mas 
no . A Carla at que  bonita, s que  diferente, no  um tipo 
comum, igual a todo mundo. Ela tem uma cara forte, uns traos 
definidos, assim meio...  fui tentando descrever. 
 No importa  cortou a Dri.  Mesmo que fosse horrorosa e 
imunda, o Fbio no podia fazer uma coisa dessas. 
 Se ele acha que ela tem mau hlito, ou precisa tomar mais banho, 
devia chegar pra ela e dizer, francamente...  ia comeando a Cris, 
fiel a sua linha de defensora da franqueza. 
 Francamente, coisa nenhuma!  interrompi.  No tinha que 
falar nada. Esse tipo de franqueza a gente dispensa... 
 Mas, afinal de contas... 
 No mximo, se fosse mesmo verdade, e ele quisesse ajudar, 
podia conversar com o Vtor, com jeito, na maior diplomacia e 
delicadeza, para ele dar um toque na irm  sugeriu Adriana.  
Afinal de contas, ele no vive dizendo que os dois so to amigos? 
 Bem, isso ...  concordou a Cris.  De qualquer modo, o que 
eu estava querendo dizer  que  um absurdo o Fbio sair falando 

da Carla desse jeito por a. Ele no tem o direito!  um grosso, um 
idiota! 

 Um babaco! 
 Um... 
Ficamos, na mais perfeita unanimidade, encontrando adjetivos cada 
vez mais adequados ao Fbio. Estvamos as trs de acordo em 
nossas opinies sobre ele. E tudo podia ter ficado por a. 
Acontece, porm, que, no dia seguinte, estvamos na fila da cantina 
comprar o lanche quando apareceu o Fbio. E a Cris resolveu ir 
tomar satisfaes: 


 Francamente, Fbio, como  que voc tem coragem de falar da 
Carla do jeito que falou? 
Ele fez cara de santo: 
 Eu? Da Carla? Est maluca, , menina? Ela ficou furiosa, 
comeou a falar mais alto: 
 Ainda nega? Vai dizer que no disse que a Carla  a menina mais 
feia... 
 Esto falando de mim, ?  interrompeu, toda sorridente (logo 
quem?!), a Carla, que vinha chegando, s ouviu seu nome e entrou 
na conversa. 
Mal tive tempo de agarrar a Cris e sair com ela da fila antes que 
algum dissesse mais alguma palavra, enquanto a Dri ficava e 
desconversava como podia. Mas em seguida, quando a Carla se 
afastou, o Fbio caiu em cima da Adriana: 
 Sua papagaia! Repete tudo o que ouve, ? Voc  mesmo uma 
pirralha fofoqueira...  nisso o que d a gente ter conversa de adulto 
na frente de criana. Mas pode esperar que tem troco, isso no vai 
ficar assim. Voc vai ver s... 
No adiantou ela negar, dizer que no sabia do que ele estava 
falando, garantir que no tinha dito nada. O mal estava feito. 
Do outro lado do ptio, eu soltava a lngua na Cris. Num instante a 
Dri estava l conosco, ainda a tempo de ouvir, junto comigo: 

 Mas tambm, a culpa  de vocs. Quem mandou contar coisas 
intimas sem pedir segredo? Se tivessem dito que era pra no 
comentar, eu ficava na minha... 
_ E precisa, Cris? Tem coisas que so to evidentes que qualquer um 
percebe... -eu respondi. 
Adriana no respondeu nada. S segurava um choro. A Cris 
continuava, se fazendo de ofendida com a minha bronca: 
_ Todo mundo sabe que sou uma pessoa muito discreta, guardo 
qualquer segredo. Mas tambm, tem que me dizer que  segredo. 
No Pra adivinhar. Se no  segredo, eu posso falar, francamente, 
com qualquer um. Eu no fiz nada demais. Ele  que... 
 Cris!  interrompi.  Quando  que voc vai aprender que essa 
tal franqueza de que voc vive falando nem sempre  uma 
qualidade? Tem horas que ela pode virar uma arma, sabe? 
 O qu? Voc agora quer que eu vire uma pessoa fingida? Uma 
covarde? Que veja algum como a Carla ser atacada pelas costas, 
coitada, por algum que se diz amigo, e no faa nada? Nem ao 
menos ente fazer alguma coisa em defesa dela? 
 No  nada disso. S estou querendo dizer que agora mesmo, h 
pouquinhos minutos, voc podia ter ferido muito a Carla, machuca 
lo mesmo, feito sofrer, sabe o que  isso? J imaginou o que seria? 
Ela chegando toda alegre e brincalhona, no meio de todo mundo, e 
ouvir que o Fbio disse que ela  feia e fedorenta? Acha que no di, 
? Que no ia causar um sofrimento que podia durar muito tempo, 
ficar com la por toda a vida? Pois era isso o que voc ia fazer. E eu 
sei que no por mal.  s porque voc no consegue pensar um 
pouquinho ante e falar, medir as conseqncias do que vai dizer, 
sacar que as palavras tm um peso na vida das pessoas. 
 Mas a Carla nem estava ali, foi um azar ela chegar de repente. E 
no estava dizendo nada disso para ela ouvir. Foi um acidente ele 
legar bem na hora. Eu s queria mostrar ao Fbio... 

Eu estava perdendo a pacincia. A Cris sempre apronta essas situa 
Des e dessa vez, eu no ia deixar passar. Insisti: 

 Pois no tinha nada que se meter. E se tivesse, no era pra se 
aqueles termos, naquele lugar, com todo mundo em volta ouvindo. 
Voc no pensou que todos que estavam na fila podiam sair 
dizendo que a Carla  fedorenta? Nem que o Fbio podia ficar com 
raiva da Dri em que a Carla podia se machucar, ficar arrasada, 
passar a tarde e a noite chorando e ir mal na prova de amanh? 
Nem que isso pode estragar a amizade do Fbio e do Vitor? Sei l, 
tem tantas outras coisas que podem acontecer por causa de um 
comentrio desses, nem d pra pensar em tudo. Mas voc no 
pensou em nada, nunca pensa, a no ser em como  legal fazer esse 
papel de herona, defensora dos coitados. Mas isso que voc chama 
de defesa acaba muitas vezes sendo aior ataque contra quem voc 
est querendo defender. 
Com esse argumento, a Cris sossegou. No respondeu nada. 
Ficamos as trs em 
silncio. 
E sem lanche, 
porque a essa 
altura a fila da 
cantina j estava 
imensa, a gente 
tinha que entrar 
no final dela outra 
vez, e ningum 
estava com cabea 
para voltar l. Mas 
a Dri e eu 
aprendemos que 
h certas coisas 
que no se pode 
contar  Cris. Coi

sas que nem podemos conversar no colgio.  melhor guardar para 
falar no telefone. 
Por Isso, o papo tem que ser interminaaavel... 
Ainda mais nesta sexta-feira. Alm de comentar sobre todos os 
assuntos do dia, da vspera e da semana passada (sempre h 
ngulos novos e detalhes que escaparam de conversas anteriores), 
tnhamos um grande assunto futuro: a final do torneio intercolegial 
de vlei, marcado para amanh no Coqueiros. 
Acho que aqui preciso explicar que Coqueiros  o nome do melhor 
clube de Palmeiral. Um nome inteiramente sem graa, sem nada a 
ver. Acho que deram esse nome porque em So Paulo existe o Clube 
Pinheiros, Clube Palmeiras, sei l. Val ver, algum diretor achou que 
todo clube tem que ter nome de rvore. Ainda bem que no 
resolveu chamar de Bananeiras, ia ser mais ridculo ainda. 
Mas, enfim, amanh  a final do intercolegial de vlei no Coqueiros. 
E tem uma coisa chata-, a Dri no foi selecionada para o time.  
claro que tnhamos muito o que conversar sobre isso no telefone. E 
conversamos, um tempo, mesmo. Era importante. 
_ Achei a maior injustia  disse eu, quase concluindo, finalmente. 
_ Voc est jogando cada vez melhor. 
_ Mas ainda no d, Tti. 
_ a ser o maior estmulo. 
_ Deus me livre! 
_ Deixe de ter medo, sua boba. 


 Mas ainda no d para eu me meter no meio daquelas feras ali. 
Eu no ia dar conta. 
_a, sim  animei.  Voc precisa confiar em si mesma. 
 No  falta de confiana.  porque no d mesmo. Ainda tenho  
um pouco de medo de bola... Quer dizer, eu acho. Quando eu vejo 
que vem uma cortada, fico querendo me encolher toda e fechar os 
olhos. Ainda bem... 
 Ainda bem o qu? 

 Ainda bem que no vou ter que jogar... 
 Ser que a gente ganha? 
 No sei. No quero desanimar ningum, no. Mas o time do 
Santa Rita  muito bom. 
 Eu sei. Por isso  que eles chegaram na final junto com a gente, 
nosso time tambm  muito bom. Os dois vo disputar a deciso do 
meio porque so os dois melhores. 
 Mas elas so melhores ainda. 
 Por que  que voc est dizendo Isso? 
Fiquei pensando: ser que a Dri estava aprendendo a ter ataques de 
riqueza tambm? Seria uma hora boa para tanta sinceridade? O que 
era melhor na vspera de um jogo decisivo? Ficar com a moral alta, 
falando que vai ganhar? Ou estar to preparada para um adversrio 
rigoso que at parece que vai ser impossvel derrot-lo? 
 Porque eu conheo bem, Tti. Esqueceu que eu estudava l? O u, 
o professor de Educao Fsica deles, foi tcnico do Independente. 
Se tem coisa que ele sabe,  treinar equipe de vlei. 
 De que lado voc est, Adriana? Agora vem dizer que o Edu  
maior? Insinuar que ele  melhor do que o Alcides, s porque foi 
tcnico de time profissional? O Alcides pode muito bem ser um 
professor melhor, saber ensinar de um jeito que a gente aprende 
mais... Isso tambm  importante, sabia?  eu estava me irritando e 
subindo o tom voz.  Afinal de contas, qual  a sua? Vai torcer pelo 
Santa Rita ou o Anita Garibaldi? 
 Pelo Anita, claro! Mas tenho medo. Porque sei que aquele 
pessoal  fissurado em vlei. Todo sbado tem jogo, todo dia tem 
umas turmas que ficam jogando depois da sada... No Santa Rita  
assim... 
 Voc ento est me dizendo que acha que no d pra gente 
ganhar? De jeito nenhum? 
_ Dar, d... Claro que d... Estou s dizendo que vai ser difcil. 

_ Pelo jeito, vai ser difcil pra todo mundo. O R falou que o 
Cruzeiro tambm... 

 Que R? 
 Meu irmo, Dri... Voc conhece outro R? Ou ser que esqueceu 
que ele  do Cruzeiro e que na final da outra categoria o Anita vai 
ter que decidir com o Cruzeiro? 
 Ah, desculpe, s estava pensando na nossa... 
 Eu penso em todas, queria muito que a gente ganhasse pelo 
menos uma. 
 Ento, quem sabe se a gente no ganha do Cruzeiro? 
 Pelo que o R falou, no temos a menor chance. Se ns, na nossa 
categoria, no conseguirmos dar uma surra no Santa Rita, o que 
acontece  que mais uma vez o Anita volta pra casa sem uma taa. 
Sempre com a eterna consolao do segundo lugar. 
 Sempre  alguma coisa... 
 Mas, Dri, sabe l o que  isso? Todo ano a gente fica na maior 
torcida e no passa do segundo. Nunca, em toda a histria do 
Colgio Anita Garibaldi conseguimos vencer nenhum torneio. Por 
mais que a gente queira ter esperanas, vai dando um desnimo... 
 Podia ser pior, Tti. Afinal de contas, tem muito colgio que 
nunca chegou  final. 
Desisti. Ela est h menos tempo no Anita, no  como eu, que 
entrei l no maternal e nunca sai,  como se fosse minha casa, minha 
famlia. Quero muito que a gente ganhe. Mas no quero me chatear 
em na vspera da deciso. Ainda mais com minha melhor amiga. 
Melhor inventar uma desculpa, cortar o papo e desligar de uma vez. 
Bem a tempo. 
Mal desliguei o telefone, deitei no sof e botei os ps para cima do 
encosto do brao, para continuar a leitura da Ilha do tesouro  que 
numa hora emocionante, o garoto ouve o barulho de uma perna Pau 
se aproximando pelo meio da neblina  quando o R chegou, m 
meu pai. Os dois sujos e suados do jogo de futebol. 


 Esse telefone estava fora do gancho?  perguntou meu pai 
assim que abriu a porta. 
 No, por qu? 
 Ficamos tentando ligar e dava sempre ocupado. Sua me j 
chegou? 
 Ainda no  respondi. Dei uma pausa e sugeri: 
 Vai ver, a linha est com defeito. Meu irmo foi verificar. 
 No, est fazendo aquele barulhinho normal. 
 Ento foi algum problema naquele orelho do calado  
concluiu meu pai, j tirando a camisa suada para entrar no 
chuveiro. 
Ao mesmo tempo, ouvi a chave na porta da entrada. Minha me 
negava do trabalho. Antes que ela tambm comeasse aquela 
lengalenga de dizer que tinha tentado ligar para casa e o telefone 
estava ocupado, fui levantando e anunciando: 
 Vou pr a mesa. 
 Eu ajudo  disse o R. 
L dentro, na cozinha, pegando os talheres dentro da gaveta, ele 
olhou para mim e disse: 
 Tti, toma cuidado. Esse negcio de voc demorar esse tempo 
todo no telefone ainda pode dar uma grande merda. 
 No telefone? Quem? Eu?  tentei disfarar. Ele insistiu, com 
firmeza: 
 Um dia desses, voc encara o pai de mau humor e ele pode egar 
pesado. Voc nem imagina como ele veio reclamando por causa isso 
pelo caminho todo, os trs quarteires da praia at aqui. A sorte que 
hoje ele fez um gol Incrvel e est nas nuvens, todo feliz. Quer tal 
sair para comemorar, jantar fora com a me, acho que era por isso 
que estava querendo telefonar, para ela ir se arrumando. Mas abre o 
lho, porque um dia sobra para o seu lado. 
 No sei do que voc est falando. 

Com as mos cheias de talheres, ele fechou a gaveta, empurrando 
com o quadril direito, olhou bem para mim e falou num tom srio, 
orno se estivesse se dirigindo a uma criancinha: 

Sabe, sim. Quando encostei o telefone no ouviao para ver se tinha 
algum defeito, deu perfeitamente para sentir que ele estava quente 
tanto tempo que voc ficou falando. Eu no disse nada, para te dar 
cobertura. No estou aqui para ficar entregando ningum. Mas de 
outra vez voc pode no dar essa sorte. 
Fiquei quieta. Era uma ameaa? Ou um conselho de amigo? E se 
fosse? O que significava? Que meu irmo no estava mais sendo to 
implicante? Ou que estava nervoso por causa da final do torneio e 
queria minha torcida no momento decisivo? Negativo. Nunca que 
eu ia torcer contra meu colgio. 


4. MO AMIGA 
_Puxa! Que dia! 
O sbado da final do torneio de vlei teve tanta coisa acontecendo 
que nem sei como dar conta. 



Pensei que primeiro devia fazer uma espcie de reportagem completa 
e descrever como foram as partidas propriamente ditas. 
Afinal, a deciso do intercoleglal  que foi o principal acontecimento 
do dia. 
O caso  que nenhuma descrio ia conseguir mostrar como foram 
esses jogos decisivos. Se eu tentasse, a ficar que nem transmisso 
esportiva pela televiso, s que sem imagem, tentando passar para 
voc i emoo do que acontecia naquela quadra. No ia chegar nem 
 dcima parte do que foi. Por mais que eu quisesse falar nas 
levantadas de bola incrveis da Luana, no saque com efeito que o 
Santa Rita mandava para cima da gente quando uma grandalhona 
de cabelo arrepiado estava no servio, ou na sorte que dei em 
conseguir colocar uma bola Indefensvel no cantinho, bem na hora 
de assegurar uma vantagem decisiva (que, alis, acabou virando 
ponto e nos levando  conquista do segundo set  nem sei como 
deu para eu perceber de repente que aquela rea estava descoberta 
e a jogadora deles no ia conseguir voltar i tempo para rebater). 
Mas, principalmente, sem ter estado l presente 10 melo da torcida, 
nunca que voc vai poder avaliar o papel decisivo la Cris nesse jogo 

 uma gigante na quadra, cortando com uma preciso e uma 
velocidade de campe olmpica, bloqueando como se fosse a 
Muralha da China. 
Enfim, foi um jogo emocionantssimo! Elas ganharam fcil o 
primeiro set, mas ns no perdemos a calma e, quando j estava 14 
a 13 no segundo set, conseguimos virar e garantir que as coisas no 
iam ficar assim. No terceiro, finalmente, partimos pra cima delas 
com garra, fomos crescendo cada vez mais, numa empolgao s... 
No se engane. No foi um passeio, nada disso, o time do Santa Rita 
 mesmo de feras, mas o caso  que, depois de um tempo em que o 
jogo estava superequilibrado, vantagem para l, vantagem para c, 
de repente, elas erraram um saque e em seguida fizemos um grande 
bloqueio, uma levantada exata e a Cris deu uma cortada genial, 
uma bola que at hoje elas devem estar perguntando por onde 

passou. Para defender, era preciso ser a prpria Santa Rita, que 
dizem ser a padroeira dos casos impossveis. Porque, se fosse 
depender de gente comum, assim feito ns, no dava mesmo. 
Nem preciso dizer que a foi aquela festa. Apito final do juiz, quadra 
invadida, gritaria, abraos pra todo lado, choros, cantoria, torcida, 
batucada. L estvamos ns: pela primeira vez na histria, o Anita 
festejando um campeonato e trazendo a taa! A Cris foi at 
carregada nos ombros, numa volta pela quadra. Uma alegria sem 
fim. 
A equipe masculina, na outra categoria, no teve a mesma sorte (ou 
a mesma capacidade, afinal uma vitria dessas no  s uma 
questo de sorte) e tomou a surra tradicional e esperada: foi 
eliminada logo no segundo set, por15 / 8 e15/5. Rapidinho.O 
time do Cruzeiro era mesmo muito experiente, cheio de Jogadas 
espertas, ensaiadas, o nosso no dava nem pra sada. Eles tinham 
um tal de Bial que era um absurdo, no perdia uma, parecia jogador 

de seleo. E eram mesmo os favoritos. A derrota do masculino do 
Anita no surpreendeu ningum, o pessoal no estava contando 
mesmo on a vitria. Para falar a verdade, com vitria nenhuma. A 
nossa  que zebra. 
Por tudo isso, a festana parece que foi ainda maior. E como o 6so 
jogo foi antes do da equipe dos meninos, depois ainda fomos ajudar 
a torcer por eles, mas no adiantou. Acho que os caras ficaram 
nervosos demais, sentindo a tenso da responsabilidade ainda 
maior pois da nossa vitria  o que s piorou as coisas para o lado 
deles. 
Mas, para a histria que estou contando, esse momento na 
arquibancada teve coisas importantes. 
Alis, acho que posso aproveitar essa ligeira pausa para explicar um 
aspecto importante disso que estou escrevendo, que  o tempo. Por 
ia questo de honestidade com voc. s vezes falo (ou melhor, 
escrevo) "hoje" para me referir ao dia em que as coisas esto se 
passando. Por exemplo, no captulo anterior, fiz isso o tempo todo. 


Mas o quer dizer que esse "hoje"  de verdade, que escrevi 
exatamente o dia em que aconteceu.  s um jeito de contar. At 
falei com o Clovis, professor de Portugus, para saber um pouco 
dessas coisas. Ele explicou que existe um tal de "presente histrico", 
que os escritores usam para narrar as coisas como se estivessem 
ocorrendo na hora. Mas esse caso, eles usam o presente mesmo. 
Sabe como ? Em vez de en "Hoje a Dri me telefonou, etc...", eu a 
ter que escrever alguma coisa como "O telefone toca. Vou atender.  
a Dri...". E assim por diante. 
No  bem o que estou fazendo. Pelo menos, no o tempo todo. 
Estou s usando um artifcio de aproximar o passado do presente  
foi que o Clvis explicou. Mas toda a explicao dele foi em termos 
ais. Sobre tcnicas de narrativa, como ele diz. Porque eu no mostrei 
a ele este texto nem disse que estou escrevendo nada.  uma coisa 
lha, ningum tem que saber. S quem sabe  o Diego, e mesmo 
assim, s de um modo muito vago. Como vou lhe contar mais 
adiante, certo modo a idia de escrever isto surgiu por causa de 
uma conversa com ele. 
Mas isso fica para depois, porque, neste ponto em que estou agora, 

o Diego mal entrou na histria. Agora  que ele vai aparecer de 
novo. 
Justamente na arquibancada do Clube Coqueiros, onde estava o 
pessoal -!JS assistia  final do torneio intercolegial de vlei. 
S que, antes do Diego, ainda vai aparecer de novo outra pessoa, p 
talvez voc nem imaginasse que ainda ia cruzar novamente o nosso 
caminho. Uma menina lourinha, de olhinhos brilhantes, jeito meio 
tmido cara simptica. Comeo ento falando dela. Quando acabou o 
jogo entre o Anita e o Santa Rita, foi aquela festa de que j falei. At 

o grito de guerra da torcida deles a gente conquistou para ns, 
porque eles sempre gritam: 
 a maior! A mais bonita! 


 a vitria do Santa Rita! 

E num instante, estava todo mundo gritando: 

 a maior! A mais bonita! 

Grande vitria  a do Anita! 

E mais outras variantes: 

Viva o Anita! 

Acabou com o Santa Rita! 

Pois bem, no meio dessa confuso que tinha se formado depois do 
final do jogo, com um monte de colegas pulando e nos abraando, 
apareceu uma menina com a camisa do Santa Rita, se metendo 
tambm Para dar abraos e parabns. Ningum estava ligando 
muito, nem prestavam ateno nela direito, mas achei esquisito. 
Mais ainda, quando vi que ela estava falando alguma coisa com a 
Adriana, que fez cara de zangada, meio chorosa, empurrou a 
menina e sumiu, nem vi para onde ela foi. Como lembrei que a Dri 
tinha estudado no Santa Rita, achei que as duas deviam se conhecer 
de l e que a garota tinha vindo implicar com minha amiga. Fui 
tomar satisfaes. Me livrei como pude de todos aqueles 
cumprimentos  minha volta e fui l perguntar: 
O, garota... Voc no  do Santa Rita? O que  que est fazendo " no 
meio da gente? 

 Desculpe  respondeu ela, melo sem graa, com um ar de quem 
estava chateada -| vim dar os parabns, falar com uma amiga 
minha que no via h um tempo... 
 Com quem? 
 Com a Adriana, voc conhece? 

 Conheo, sim. E, pelo que vi de longe, ela no estava muito 
querendo falar com voc. Por que no deixa ela em paz e vai cuidar 
da sua vida, hein? 
_ Desculpe  repetiu ela, 
abaixando os olhos e 
engolindo em seco. Sei l, 
foi alguma coisa no jeito 
dela que me tocou. 
Perguntei: 

 Voc  amiga dela? 
A menina no disse nada. 
Insisti: 
 Eu te fiz uma 
pergunta, garota. No 
ouviu no, ? 
Ela disse, meio baixo, de 
um jeito que quase no 
ouvi no meio da fritaria: 


 Nem sei mais. No sei o que aconteceu. A gente era muito 
imiga. Agora no sei. S sei que nunca mais a gente se viu. E eu 
estava :om saudade dela... 
 Qual  seu nome? 
 Rafaela. 
Ah, pensei... a do aniversrio, que fez minha amiga chorar tanto. 
Comecei a entender... Fiz outra pergunta: 
 E por que vocs deixaram de ser amigas? 
 No sei. Ela se mudou, saiu da escola, no foi  minha festa, nunc 
mais quis falar comigo... Deve ter sido alguma coisa sria, mas no 
sei-. 
E comeou a ficar com a boca tremendo, sabe?, como quem est 
quase chorando... Essa no! Criar um clima desses bem no meio 
maior festa esportiva que o Anita j teve? Fui logo cortando: 

 Escute, fique na sua que tenho uma idia. Eu conheo a Dri. Voc 
vai ficar por a? 
 Acho que vou. Bem que eu estava querendo ir embora, mas meus 
pas s vm me buscar no final. 
 Pois ento depois eu trago a Dri para conversar com voc. Mas 
agora e melhor voc ir para junto do pessoal do seu colgio, que a 
festa aqui  nossa... 
-T bem. 
Foi saindo, mas mudou de idia e voltou. Eu j estava indo para o 
meio da batucada, ela puxou minha camisa para me virar e disse: 
 Desculpe, eu no queria atrapalhar a festa de vocs, s quis falar 
com a Dri porque adoro ela. E multo obrigada, viu? Voc foi muito 
legal. 
E foi embora. 
Voltei para o meio da minha turma e na hora nem pensei mais em 
nada disso. Ainda festejamos um pouco, depois fomos para o 
vestirio tomar uma ducha e 
trocar de roupa antes da 
cerimnia de entrega dos 
trofus e medalhas. Enquanto 
isso, comeava o jogo dos 
meninos contra o Cruzeiro. 
Quando voltei, limpinha e 
cheirosa, toda 
produzida 
para subir no pdio na 
cerimnia final, fui sentar na 
arquibancada. A Dri tinha 
guardado um lugar para mim 
perto dela e ento lembrei da 
menina. Fiz sinal para a 
Adriana me esperar, fui at 
perto de onde estava o pessoal 



do Santa Rita e nem precisei procurar. A Rafaela saiu do meio do 
grupo e veio correndo para perto de mim: 
_ J falou com ela?  foi logo perguntando. _ Ainda no  
respondi.  Antes de falar, quero que voc me explique que 
histria  essa. 
_ Bom, a gente era muito amiga, sabe? De verdade, a Dri  um 
barato de pessoa, era minha minhamelhor amiga, eu adoro ela. 
_ Isso voc j disse. S no disse foi o que aconteceu. 


 No posso dizer. Ela  minha amiga  repetiu a menina 
Desculpe, mas no vou ficar falando dela assim... S com ela 
mesmo. Porque, se eu falar com os outros, pode parecer que ela fez 
uma coisa que no foi legal, mas tenho certeza de que deve ter tido 
um bom motivo. E no quero que ningum pense mal da minha 
amiga. 
Tai, gostei da resposta. Achei que era uma atitude leal, de quem 
gosta mesmo. De amigo verdadeiro. Ainda testei, provocando: 
 Amiga? Que fica dois anos sem falar com voc? 
 Como  que voc sabe que so dois anos?  reagiu ela.  EU io 
falei quanto tempo era... 
 Eu j ouvi falar nessa histria. E, pelo que sei,  bem diferente do 
que voc contou. 
A firmeza dela me deixou admirada: 
 Ento me conte. Porque, para mim,  exatamente como te disse 
Eu ia dar uma festa, a Dri me ajudou em tudo, cuidamos dos 
mnimos detalhes. E em cima da hora ela no foi, no telefonou, no 
deu sinal de vida. E nunca mais quis falar comigo. 
 Voc tem certeza de que convidou?  provoquei, sempre na 
defesa da Adriana. 
 Voc no entende... como  mesmo seu nome? 
 Tatiana. 
 Pois olhe, Tatiana, no sei se voc j teve uma grande amiga, de 
verdade, dessas que a gente sabe que  para sempre, pode contar 

para tudo, confiar em tudo. Como se fosse uma irm. Mais ainda. 
Porque mn a gente no escolhe, e amiga, sim. 

 J tive, sim  confirmei, sem dizer que era a mesma pessoa de 
quem ela estava falando.  S no sei em que isso justifica a gente 
dar ima grande festa e no convidar essa amiga. 
 Mas  o que estou explicando. Uma amiga assim  uma pessoa 
nurto especial. Nem precisa de convite,  claro que ela estava 
convid-la! A festa era nossa, de ns duas, to dela quanto minha... 
A, nos dois dias antes da festa, quando eu queria combinar os 
ltimos detalhe-unca tinha ningum na casa dela. Mas eu tinha 
certeza de que ela lesmo assim, no ia esquecer. S que no foi. 
 E por que voc no falou com ela depois? 
Voc pensa que no tentei, Tatiana? Fiquei ligando para ela, porm 
atendia. Fui na casa dela, no tinha mais ningum, o porteiro disse 
que eles tinham se mudado. Eu era a melhor amiga da Adriana, ela 
se mudou e nem me disse para onde. No me deu o endereo novo 
nem o nmero do telefone. S pode ter acontecido uma coisa muito 
5ha Tenho certeza. No quero que voc pense mal dela, ouvindo 
isso que contei. 
Resolvi ajudar, estender uma mo amiga. Pelo jeito, a Rafaela 
merecia: 

 No vou pensar mal dela. Tambm gosto multo da Dri. E sei que 
ela sempre gostou muito de voc, s que ficou achando que no foi 
convidada para o seu aniversrio e se chateou. Vamos at l falar 
com ela. Tenho certeza de que vocs vo se entender. 
Tnhamos que Ir logo, aproveitar o intervalo para poder trocar de 
lugar. E a caminho de onde estava a torcida do Anita na 
arquibancada, a Rafaela ainda contou mais: 
 Nem acredito que a gente vai poder esclarecer isso agora... Essa 
histria estragou minha festa de aniversrio, minhas frias, tudo. 
Quando as aulas recomearam, eu estava louca para conversar com 
a Adriana, e s a descobri que ela no estudava mais no colgio. 
Fiquei to chateada que vivia de mau humor, comecei a ter proble

mas na escola. Minha me foi at l, conversar com a coordenadora, 
acabou voltando com o nmero do telefone novo da Dri. S que no 
adiantou nada, ela no quis falar comigo. Minha me at se meteu 
de novo, falou com a me da Dri, ela velo at o telefone, cheguei a 
ouvir a voz dela dizendo "Al!". Mas, quando eu comecei a falar, ela 
desligou na minha cara! Ai tambm foi demais, n? Tenho ^eu 
orgulho, no la ficar me rebaixando, lambendo os ps de quem 92 
uma coisa dessas comigo... 
_ ...  disse eu, sem saber o que dizer. 
Ainda bem que dava pra no dizer mais nada, s ir subindo pelo 
meio dos degraus e me encaminhando com a Rafaela para junto da 
Adriana, que nos olhava meio de boca aberta, sem entender o que 
estava acontecendo. 
Tambm, a ocasio no era boa para entender nada. O intervalo da 
decisiva de um torneio, no meio da torcida! 

Mal tinha lugar para uma pessoa sentar ao lado da Adriana. 
Enquanto estvamos ali de p, vendo que jeito a gente dava, 
comeou o segundo set. A galera toda mandava a gente sentar. De 
repente, algum me cutucou num degrau acima e eu vi, ainda mais 
para o alto, um brao que saia da multido e se estendia na minha 
direo. Tipo mo amiga sabe como ? E voc nem imagina quem 
era o dono do brao. Era o Diego, fazendo sinal: 

 Oi, vem c, aqui tem um lugar! 
No dava pra hesitar nem escolher. Subi e sentei. Ele explicou: 
 No tinha mais lugar do outro lado, na torcida do Cruzeiro, e 
acabei sentando aqui com o Penumbra. Nem reparamos que 
estvamos justamente no meio da torcida do outro time. Mas ele 
no agentou a presso do pessoal do Anita e foi embora. 
Ainda bem. Porque Penumbra no pode ter dois. E o Penumbra que 
conheo  um moreninho de olhar cado, assim meio de peixe 
morto. Um amigo do meu irmo, da turma dele. E para mim, por 
definio, todo amigo do meu irmo  um chato. 

Ficamos ali os dois, Diego e eu, sentados lado a lado, assistindo a 
uma final de campeonato como se estivssemos na igreja. Olhando 
para a frente, compenetrados, e em silncio. Eu, porque estava meio 
sem jeito, e naquela partida no tinha mesmo nenhuma jogada 
nossa to brilhante que me desse vontade de festejar, o time do 
Anita estava levando uma surra e no dava nem pra sada diante do 
adversrio. Alm disso, eu estava com um olho na quadra e outro 
na torcida, preocupada com o encontro entre a Adriana e a Rafaela 

 mas, pelo jeito, elas estavam se entendendo, falando sem parar, 
sem nem olhar para o jogo. Quanto ao Diego, na certa aquele 
silncio tinha outra explicao: ele devia estar se controlando para 
no torcer pelo Cruzeiro no meio da torcida do Anita. Se ousasse 
comemorar os pontos deles era capaz at de apanhar. 
Quase no fim do jogo, ele comentou: 
 Bom, parece que esse ai a gente ganha... Tambm, vocs no 
podem levar tudo! Alis, nem lhe dei os parabns. Voc jogou bem 
demais! Quando falei com voc outro dia na casa do Vtor, nem 
imaginei que estava conversando com uma campe... 
_ ... hoje a gente deu sorte...  uibbe eu, estourando de orgulho, 
mas tentando parecer modesta. 


 Sorte, nada! Foi categoria mesmo...  insistiu ele. 
Olhei bem para a cara dele e sorri. Como no sorrir diante de um 
comentrio desses de um menino at que quase bonitinho? E com 
um sorriso to... Simptico? No, no  essa a palavra. 
Transformador, isso sim! Nos olhos dele, eu j tinha reparado antes. 
Mas foi nesse momento que descobri, assim de uma hora para a 
outra, uma coisa surpreendente e inesperada, que me pegou pelo 
p, de repente.  que, quando o Diego sorri, o rosto dele se 
transforma por completo. Fica bonito, com os olhos meio 
apertadinhos e uns dentes muito brancos chamando a ateno no 
rosto bronzeado. A gente at esquece o nariz um tanto grande e a 
pele, assim... marcada, digamos. De certo modo, o sorriso reala os 

aspectos positivos dele: o olhar, os dentes e, sem dvida, o cabelo. 
Bem preto, liso, sempre caindo um pouco na testa. 
Mas no cheguei a ter tempo de fazer multa coisa com essa 
descoberta. Todo mundo se levantava, tentava descer os degraus da 
arquibancada. Ns dois tambm. No meio disso, veio a Adriana em 
sentido contrrio, subindo e pedindo: 


 Voc tem uma caneta e um papel para me emprestar? Estou 
precisando anotar uma coisa. 
Sentei de novo. Diego sentou ao lado. Mil pernas passavam em 
volta, empurravam, a maior confuso. Ele se virou para trs e 
reclamou com algum que empurrava, enquanto eu botava a 
mochila no colo e abria. Estava supercheia e, para pegar um 
caderninho que estava no fundo e arrancar uma folha, eu tinha que 
tirar algumas das coisas que estavam por cima. Entre elas, o livro 
que eu estava lendo, to emocionante que eu carregava pra todo 
lado, para ver se conseguia adiantar e ler um pouco no nibus, nos 
intervalos de qualquer coisa  A ilha do tesouro, no sei se j falei 
nele, nem se voc j leu,  demais! 
_ Est gostando?  perguntou Diego. 
_ Do qu? Da derrota? Ou dos empurres das pessoas?  perguntei 
quase malcriada. 
Ele sorriu de novo. Quase me esqueci do resto: o que era mesmo 
que eu estava fazendo ali no meio daquela multido, com uma 
mochila aberta no colo, puxando para fora dela um saco plstico 
com u uniforme de vlei sujo e suado? 
 Do livro, claro...  explicou ele. 
 Anda, Tti... Tem ou no tem?  insistiu a Dri conseguind 
chegar perto e estendendo a mo. 
 Tenho, sim. 
Achei o caderninho, peguei a caneta na bolsinha de fora da mochila 
e passei tudo para ela. Guardei de volta l dentro o que tinha tirado 
e levantei. Ao mesmo tempo, vi a cara do R, meu irmo, uns 
degraus abaixo. Estava todo animado, no meio de um monte de 

amigos do Cruzeiro, festejando, olhando em minha direo e 
chamando: 

 Anda, cara! Vamos l no vestirio falar com o Biel... No entendi 
nada. Cara, eu? E me meter no vestirio dos menino-
Com meu irmo? Para falar com o sebento do Biel? O R devia te 
ficado maluco... No dava mesmo pra entender. 
Por um segundo. 
Porque a percebi. No era comigo. Os amigos do R, em volta dele, 
gritavam: 
 Anda logo, Didi! 
O Diego, descendo os degraus, se despediu rapidamente: 
 Tchau, Tti... 
E gritou para o R: 
 T indo, Frajola... 
Dd? Frajola? Essa no! Ento tudo aquilo que eu acabava de descobrir 
em volta do sorriso do Diego era apenas o Dldi? O famoso Didi 
amigo do meu irmo? Parte daquela turma infecta de Biel, Quico, 
Penumbra e no sei quem mais? O tal Dd que vivia ligando l para 
casa e deixando minha me furiosa quando mandava chamar o 
Frajola? 
Mas a confuso em volta era enorme. A Dri e a Rafaela me chamavam. 
Todo mundo que ainda estava na arquibancada descia os 
degraus, com pressa de chegar  quadra. Fui junto, quase 
empurrada. 

As duas estavam 
todas contentes, 
rindo, abraadas, 
falando quase 
untas: 

 Tti, voc nem 
imagina... 
 No era nada 
daquilo... 
 Foi s uma 
confuso... 
 A gente est 
amiga de novo... 
No dava nem 
para distingui quem falava. Nem importava muito Em menos de 
um minuto eu tinha cado das nuvens e sido arrastada pela fora da 
correnteza. 
Acho que quando a gente escreve tem que usar de vez em quando 
umas imagens assim, para o leitor poder entender melhor o que est 
acontecendo, numa comparao com outra coisa que ele conhece. 
Mas no tenho a menor experincia, no sei se isso ajuda a 
compreender ou atrapalha. Enfim, eu estava meio tonta com tudo 
aquilo,  o que quero dizer. E tudo aquilo era formado por aquelas 
duas coisas que aconteceram bem seguidas, e mexeram comigo. 
A primeira, claro, foi descobrir que o Diego at que era um menino 
muito interessante  mas que no passava de um amigo do R, da 
turma daqueles nojentinhos todos. A segunda era ver que, na hora 
desse choque, eu nem podia contar com o apoio de minha melhor 
amiga, porque ela nem tomava conhecimento de que eu existia e 
precisava dela, mas estava toda sorridente e abraada com uma 

menina lourinha  essa sim, a melhor amiga dela desde muito 
antes de me conhecer. 
Elas comearam a me contar o que tinham conversado, mas eu nem 
conseguia prestar ateno, tive de perguntar tudo de novo mais 
tarde e ouvir a Dri me contar a histria toda outra vez, com calma. 
Por isso, tambm deixo para contar mais adiante. Naquele 
momento, aquilo tudo estava me dando a maior irritao. Ainda 
bem que a Luana passou e me chamou: 

 Tti, a gente estava te procurando. Vai ter a entrega do trofu e o 
Alcides quer o time completo no pdio. 
Foi um alivio ter esse pretexto maravilhoso para sair dali. 
Segui a Luana para o pdio. Bom, pdio  exagero. No tinha nada 
daqueles degrauzinhos que a gente v na televiso no final das 
competies, onde os campees sobem e do um banho de 
champanhe em todo mundo. Mas tambm no tinha champanhe 
nem televiso. Tinha era muita confuso e alegria, e eu at esqueci 
qualquer chateao, o pblico todo tinha descido para a quadra e os 
professores de Educao Fsica chamaram os campees, que 
subiram alguns degraus nas arquibancadas, e ficaram mais em 
cima, meio como se fosse num palco, mais alto que todo mundo. 
Ficamos todos festejando, falando ao mesmo tempo, enquanto 
espervamos a cerimnia comear  e ainda demorou um pouco, 
at os meninos do Cruzeiro voltarem do banho para receber o 
prmio. Ai uns caras l disseram umas coisas, tipo discurso, falando 
na importncia da prtica esportiva e em "mente s em corpo so", 
essas coisas de sempre. Depois chamaram os capites das equipes 
vencedoras para receber as taas. E cada membro da equipe ainda 
ganhava uma medalha, presa numa fita larga, que ia sendo 
pendurada em nosso pescoo. No final, ainda cantamos o Hino 
Nacional. 
Foi emocionante. 



Nunca na minha vida eu tinha sido campe de nada. Nem sei s 
algum dia vou ser de novo. Foi mesmo uma sensao muito 
gostosa. L estvamos ns, com o corao batendo forte (do meu 
lado, as lgrimas escorriam pelo rosto da Crls, nossa maior figura 
na quadra), todo mundo srio cantando o Hino, aquelas caras todas 
l embaixo, todas as famlias olhando para a gente, umas mes 
enxugando os olhos, os pais com cara de orgulho... 
Fui correndo o olhar pela platia, como se fosse uma cmera, 
focalizando um por um. Minha me. Meu pai. Os pais da Luana 
com os gmeos irmozinhos dela no colo. A av da Dbora (que 
sempre acha que a neta  melhor que todo mundo mesmo) e mais o 
resto da famlia dela. Uma tia da Bebei que j foi da seleo estadual 
de vlei e s vezes vinha dar uma fora. A me da Carla e do Vtor 
(o Vc Bellini no veio porque estava numa turn com a banda). A 
famlia completa da Maria Freitas (e bota completa nisso, so seis 
irmos)... Tudo quanto era pai, me, irmo, dividindo conosco 
aquele grande dia. 

Quando acabou o Hino, para encerrar, chamaram mais uma vez os 
capites das equipes para levantar as taas para o pblico. O tal Biel, 
do Cruzeiro, e a Cris, do Anita, subiram mais um degrau, 
destacados de todos, e foram aplaudidos no meio da maior gritaria. 
Olhei os dois l em cima, vi que a Cris estava mesmo segurando o 
choro  um choro estranho, que parecia mais de tristeza do que de 
alegria, num rosto tenso, os olhos correndo pela plateia de um lado 
para o outro, o lbio de baixo tremendo. Virei-me e olhei para baixo, 
seguindo o olhar dela. Na certa estava olhando para os pais. Onde 
estavam? Procurei bem, no lugar reservado para as familias dos 
ganhadores. No havia ningum da familia dela. Mais uma vez! Por 
que eles sempre faziam Isso com a Cris? Me dava a maior raiva... 
Quando a gente fez uma pea de teatro, eles foram os nicos que 
no vieram. Nas festas de fim de ano, no davam as caras. Mas ali 
era demais, nem no torneio de vlei em que a filha brilhou? 
A cerimnia acabou, o Alcides avisou: 


 Chamem os pais e vamos todos almoar na Pizzaria Vesvio. 
Tem uma sala especial, reservada. O Anita est convidando, para 
festejar. 
Todo mundo foi saindo para o restaurante. A pizzaria ficava a duas 
quadras do Clube Coqueiros, foi aquele monte de gente andando 
pela calada. De repente, quando passamos pela esquina, vi a Cris 
parada num ponto de nibus na outra rua. Sozinha. Falei com 
minha me, me separei do grupo e fui at l. 
Quando cheguei perto, vi que a Cris estava chorando! E logo 
percebi que no era s pela emoo da vitria. 
No sabia o que dizer, passei o brao em volta do ombro dela. 
 O que foi, Cris? 
 Nada. 
 Vamos com a gente at a pizzaria. 
 No estou no clima. 
 Mas, Cris, voc foi a melhor jogadora do time, sem voc a festa 
no tem graa... 
 Obrigada, Tti, mas no estou a fim de comemorar nada... E 
desatou a soluar. 
Fiquei perdida, sem saber o que devia fazer, mas sentindo o maior 
carinho pela Cris. Naquela hora, eu s queria consertar o mundo 
todo, para nunca existir nada que pudesse fazer algum se sentir do 
jeito que ela estava. S que, eu sabia, no podia fazer nada. No 
estava ao meu alcance. 
Quando o nibus chegou, ela no tomou. Achei que era um bom 
sinal. Quer dizer, talvez houvesse uma chance de que ela ainda foss 
at a pizzaria. Insisti, perguntei se estava com algum problema, se e 
podia ajudar, se ela queria conversar. 
 Agora, no. Outra hora, talvez  respondeu ela, j comeando a 
se acalmar, como se os soluos tivessem ajudado a desabafar um 
pouco. 
 Isso!  concordei.  Agora  hora de comemorar. Venha 
conosco... 

 Todo mundo est com os pais, eu fico meio deslocada. 
 Que bobagem! S tem amigo, Cris... Somos ns, a sua turma, o 
seu time que voc acaba de levar a uma vitria histrica...  um 
grande dia... Venha, voc senta perto de mim... Vamos... 
Ela ainda hesitava, mas veio. 
Quando entramos no restaurante, muita gente ainda estava em p, 
se ajeitando, andando entre as mesas, procurando lugares. Tinha 
uma mesa imensa e mais outras menores em volta. Fui levando a 
Cris par perto de onde meus pais estavam, para nos sentarmos 
juntas, mas Alcides chamou, disse que as jogadoras iam ficar perto 
dele e d diretora do Anita, no lugar de honra, na mesa principal. 
Tudo bem. Estamos indo  disse eu. E sussurrei para a Cris: 
 Passe antes no banheiro e lave o rosto, para ningum ver que 
voc chorou. 
Enquanto ela fazia isso, fui atrs de um telefone. Liguei para a me 
da Cris e anunciei, na maior cara de pau: 
  a me da Cris? Aqui  a Tti... Desculpe estar ligando, mas e 
queria dizer  senhora que ns ganhamos o torneio e sua filha foi 
um fera na quadra. Estamos agora na Pizzaria Vesvio com a 
diretoria do Anita, comemorando. E mandaram chamar a senhora. 
 Obrigada, mas no sei se vou poder... De qualquer modo, 
parabns  disse ela, gentil mas distante. 
 Estou s dando o recado. Mas, se eu fosse a senhora, no Derdia... 
Afinal de contas,  uma festa especial para sua filha, que foi a 
oresena decisiva na quadra...  uma homenagem da diretoria para 
ela. Todos os pais esto aqui, menos a senhora e seu marido. Pode 
pegar mal na escola, n? 
E fim de papo. 
Fui para meu lugar. Num instante a Cris chegou. Todo mundo 
comeou a pedir refrigerante. Os garons trouxeram po, manteiga, 
azeitonas. Ficou uma conversa animada, cada um comentava um 
lance do jogo.  divertido isso, depois que a partida termina e a 

gente vai descobrindo que muitas vezes cada jogadora viu a mesma 
jogada de um ngulo, as lembranas so diferentes... 
Era um rodizio de pizza, o garom ficava trazendo um pedao 
depois do outro, cada hora um sabor diferente  queijo, presunto, 
lingia, tomate, e mais um monte de coisa. Foi muito divertido. No 
final, ainda tinha escolha de sorvete  vontade, num balco 
refrigerado. Foi a maior confuso, todo mundo ficando em p, 
fazendo seu prprio sun-dae, caprichando nas coberturas mais 
esquisitas, banana com chocolate, morango com amendoim, 
marshmallow com granulado... Depois, de volta na mesa, cada um 
queria provar o sundae do outro, era um tal de passar colher com 
sorvete de l para c... Rimos muito, foi superdivertido. 
No finalzinho, o Alcides deu umas pancadinhas com a faca numa 
garrafa, de leve, como se estivesse batendo uma sinetinha, e todo 
mundo ficou quieto. A ele se levantou e falou umas coisas muito 
legais, que acho que a gente no vai esquecer mesmo. Disse que o 
Anita agradecia a ns, que ramos as suas meninas do vlei. Que 
ns tnhamos provado que uma equipe sem tradio de vitrias 
pode triunfar quando tem disciplina, perseverana, vontade de 
vencer. Determinao, de verdade. Que isso se chama "garra" e  
uma conquista muito mais importante que apenas a vitria em um 
campeonato de vlei. Que o esporte forma para a vida e ensina a 
trabalhar em conjunto, a no se deixar abater, a dedicar muito 
esforo para a construo do que se quer. E mais uma poro de 
coisas. Foi aplaudidssimo. 
Depois sentou. A a Dbora levantou, toda piscante e dengosa, e, 
como no consegue perder uma oportunidade de se exibir, fez um 

discurso de agradecimento ao Anita  ou de puro puxa-saquismo 
como quiserem. Falou no privilgio de estudar num colgio assim, 
no apoio da direo, na dedicao dos professores... Foi meio 
aplaudida sabe como , aquelas batidinhas de mo meio chochas e 
sem fora que nem chegam a fazer barulho e acabam logo, s de 
fingimento. 


De repente, vi que a Cris se levantava. Antes de falar, todo mundo 
j tava batendo palma, assobiando, gritando o nome dela. Naquele 
dia, ela a "nossa idola"  e nem faz diferena se dolo no tem 
feminino. 
Ela falou bem pouquinho: 

 Eu s queria dizer uma coisa.  que estou contente por estar aqui 
com vocs. Porque o vlei  um esporte de equipe. (So seis pessoas 
na ladra, e mais a retaguarda ali no banco, com que a gente sabe que 
) de contar a qualquer momento. Fica todo mundo dizendo que eu 
fiquei bem, mas isso no existe. No  uma pessoa sozinha. Tem 
sempre quem que antes preparou uma jogada, algum que vai 
completar o que a gente comeou, algum que no vai nos trair nem 
deixar na mo, que capaz de se superar para que nosso esforo no 
se perca... S funciona porque  assim. Por isso, neste momento, 
gostaria de desejar que isso continue pela vida afora. Que sempre 
possamos confiar na eficincia das companheiras. E que nos 
momentos mais difceis sempre aparea uma mo amiga. Como eu 
tive a sorte de ter hoje. 
Encerrou sorrindo, e olhou para mim antes de sentar, no meio de na 
ovao. Fiquei achando que aquele negcio de mo amiga era 
comigo, e que ela estava falando em muito mais do que vlei. Eu ia 
levantar para ir l dar um abrao nela mas, antes disso, entrou por 
trs na mulher e comeou a lhe dar beijos. Era a me dela. Quando 
eguei perto, s ouvi que ela dizia: 
 No deu para vir antes, mas acho que ainda cheguei a tempo... i, 
minha filha, estou to orgulhosa de voc... 
A cara de felicidade da Cris, abraada pela me, dizia muito mais 
do que sou capaz de descrever. Era evidente que, para ela, aqueles 
beijos abraos valiam mais do que o trofu. 
 isso a: uma mo amiga s vezes tem que ser ajudada por palavras 
amigas. At mesmo ditas por telefone a uma me que a gente mal 
conhece. 

5. AMIGO  COISA PRA SE GUARDAR 
Nos dias que se seguiram a esse agitadssimo sbado em que houve 
a deciso do intercolegial, muitas coisas foram se modificando e 
trocando de lugar. Principalmente coisas do corao. Daquelas de se 
guardar do lado esquerdo do peito. 
A primeira delas foi a relao entre a Dri e a Rafaela. Foi muito 
emocionante saber que eu tinha ajudado as duas a fazer as pazes. 
Samos as trs juntas no domingo de tarde, fomos a um cinema e no 
fim ainda fomos lanchar. Sentadas em volta da mesa, entre 
hambrgueres e cachorros-quentes, enfiando na boca uma batatinha 
frita atrs da outra, e dando goles em canudinhos de refrigerantes, 
as duas recapitularam a histria que, muito resumidamente, passo 
agora para voc. 
O caso  que na preparao da tal festa de aniversrio da Rafaela, 
dois anos antes, as duas tinham ficado to empolgadas que a Dri s 
faltou ir morar na casa da amiga, ficava l o tempo todo. A me dela 
deixou (desconfio at que talvez no ligue muito mesmo em ter a 
filha por perto o tempo todo, como diz minha me) e achou bom, 
porque estava organizando a mudana, j que eles estavam se 
preparando para vir morar no nosso bairro. E a Adriana, desligada 
como sempre, s pensava na festa da amiga e nem se lembrou de 
dizer  Rafaela que ia se mudar. Mas na casa dela os preparativos 
continuavam, mesmo se ela no estivesse percebendo. Fizeram a 
mudana na vspera ou poucos dias antes da festa e a tonta da Dri 
ficou esperando um convite da Rafaela ou um telefonema que 


nunca veio. Nem lhe passou pela cabea unia das seguintes 
hipteses: 
a) no precisava de convite, era s dizer  me que tinha uma festa 
dia tal em tal lugar e pedir para levar; 


b) no tinha dado o novo endereo nem o nmero de telefone para a 
amiga, s tinha dito de passagem que ia se mudar, mas ^ disse 
quando nem para onde; 
c) era ela quem tinha o numero da outra e, por isso, devia telefonar 
para a Rafaela e contar as novidades da nova casa, do novo bairro, 
mais tarde, do novo colgio. 
Em vez disso, no se tocou do que tinha acontecido e ficou chateada 
porque a Rafaela no a chamou para a festa. Ainda por cima estava 
to furiosa que nem mesmo quis falar com a amiga quando ela 
finalmente, acabou telefonando. 
Eu ouvia isso e achava tudo to incrvel que, se isto aqui fosse 
mesmo um livro desses que tm que inventar uma histria, no ia 
ter coragem de criar um caso desses. Porque qualquer leitor ia achar 
um absurdo e ningum ia acreditar. Mas como  de verdade, e 
acontecei mesmo, tenho mais  que contar.  claro que tem uma 
"atenuante", como meu pai diz, nesses casos  uma coisa que ajuda 
a diminuir a gravidade ou a culpa ,  que elas eram bem menores, 
mais crianas, s iam para onde os pais levavam, s faziam o que 
eles mandavam, e no tinham muita iniciativa prpria nem 
condies de avaliar direito. Mas, de qualquer modo, j que citei 
meu pai, tambm vale a pena citar minha me. Porque ela, de vez 
em quando, referindo-se  Adriana, diz: 


 Essa menina  to boazinha... Pena que se melindre por qualquer 
coisa... Assim, ainda vai sofrer muito. 
Da primeira vez que ela falou, eu no sabia o que significa "melindrar", 
e tive que perguntar. Ela explicou que , de certo modo, se 
ofender  toa, por uma bobagenzinha qualquer. Eu discordei 
profundamente, achei que minha me no tinha razo nenhuma. 

Mas logo ia ver que no era bem assim. 
O caso  que a nossa dupla inseparvel logo virou um trio. Quer 
dizer, em termos. No era exatamente um trio inseparvel. 
Inseparveis ramos a Adriana e eu. Mas acrescentamos uma nova 
amiga. A Rafaela j no estudava no Anita, nem morava por perto. 
S que era mesmo um amor de pessoa e gostei muito dela. Quer 
dizer, eu inteirinha, no: s um lado meu. Outro lado teve um 
pouco de medo de que a Dri no ligasse mais para mim como antes, 
agora que tinha reencontrado sua melhor amiga mais antiga. Mas 
at mesmo por causa disso, valia a pena eu ser um pouco esperta e 
virar tambm amiga dela. 
O caso e que ficamos as trs nos telefonando todo dia e combinamos 

vrias coisas. No feriado do comeo do ms que vem, vamos as 

trs para Santa Helena, o sitio da av da Dri, um lugar em que ela 

vive falando e ate hoje no conheo. 
S que, antes disso, vamos passar o prximo fim de semana juntas. 
A Rafaela vem dormir na casa da Adriana na sexta, e minha me 
levamos todas de carro ao shopping no sbado, pra gente ficar a 
tarde inteira l. De noite, vai nos buscar. O shopping fica longe l de 
casa e  muito fora de mo, no d para ir de nibus. A gente fica 
sempre dependendo da boa vontade de um adulto. Ainda bem que 
minha me est disposta a colaborar. 
Enquanto a semana passa e ns vamos nos telefonando,  hora de 
falar na segunda coisa do corao que foi crescendo nesses dias  o 
Diego. Se bem que eu no deva cham-lo de coisa.  uma pessoa, e 
das mais incrveis. 
Mesmo sem eu ter comeado a contar nada, aposto que voc j 
adivinhou que fiquei pensando muito nele depois daquele jogo de 
vlei. Por um lado, adorei ter descoberto o efeito transformador 
daquele sorriso. Nele mesmo e em mim. Por outro lado, estava 
furiosa com a outra descoberta  a revelao de que ele tinha 
mentido para mim na festa do Vtor quando disse que no conhecia 

o R, apesar de, na verdade, ser amigo ntimo dele. 

Por isso, no domingo de manh, fiquei meio sem saber o que fazer 
quando o telefone tocou e minha me me chamou: 
_ Tatiana,  para voc. 


 A Dri? 
 No,  homem... 
 Quem ? 
-No sei. S falou que  um amigo. E tem a voz igual  desses 
Meninos todos, at parece um dos colegas do Rodolfo... 
Ou seja, ela reconheceu logo a 

voz, mas no identificou  foi a 
'Clia que me ocorreu 
imediatamente. Seria ele mesmo? 
Fui atender com o corao 
batendo forte. 
_ Al! 


 Oi, Tatiana,  o Diego... 
 Oi... 
Quase que eu corrigi: "O 
Didi, voc quer dizer...". 
Mas minha me ainda estava 
por perto e eu no 
quis misturar os canais. 
 Ontem eu tive que sair 
depressa e acabei nem 
falando direito... 
_ O seu irmo est ai do 
lado? 
 No. Por qu? Quer 
falar com ele? 
 No, eu sabia que ele 
tinha combinado de ir  

praia a essa hora. Quero falar  mesmo com voc. 

 Pois est falando. 
 Por que voc est com esse jeito diferente? Est zangada? Foi 
porque ontem eu sai assim meio de repente? 
 No. Mas estou mesmo meio chateada. Foi porque voc mentiu 
para mim. E no gosto de gente falsa. 
 Eu menti para voc? Quando, menina? 
 Na festa da Carla. No lembra? Voc falou que no conhecia o 
meu irmo. Por qu? 
Ele deu uma risadinha. Fiquei imaginando o sorriso transformador 
que devia estar se abrindo naquele rosto, acompanhando o som que 
me chegava pelo telefone. 
 Ah, isso, Tti... Eu no imaginava que o Frajola era seu irmo... 
Voc falou um nome to diferente... 
 Lus Rodolfo.  o nome dele. Vai dizer que no sabia? 
 Como  que eu ia saber? Os dois somos do Cruzeiro, mas eu no 
sou da mesma classe que ele... E todo mundo no colgio chama de 
Frajola. 
 Por qu? 
 Sei l... Esses apelidos a gente nunca sabe como  que comeam. 
Parece que  porque as meninas dizem que ele  um gato... 
Deu outra risadinha e completou: 


 Mas  to atrapalhado e desajeitado que nunca consegue apanhar 
nenhum canarinho. Elas sempre fogem e deixam ele na mo. 
Foi a minha vez de rir. Mais  vontade, perguntei: 
 E voc? 
 Outro departamento. Nem sou gato nem vivo querendo apanhar 
tudo quanto  passarinho que passa... 
Epa! No era a nada disso que eu estava me referindo, com a 
pergunta. Corrigi: 
 No, eu queria saber por que voc se apresentou como Diego e 
no me disse logo que era o Didi. 

 Pela mesma razo que seu irmo no iria se apresentar dizendo 
que  o Frajola. A gente sempre usa o prprio nome. 
 ... Faz sentido... 
 Vai ver que  por isso que chama nome prprio... 
Podia ser uma piada sem graa, mas ns dois rimos. O gelo estava 
derretendo. A passamos a falar de outras coisas. Do jogo, ainda, um 
pouquinho... E, logo em seguida, ele puxou o assunto do livro. 
 Estou te ligando porque fiquei louco para conversar quando vi o 
livro que estava na sua mochila. Mas acabou no dando tempo. 
Voc est lendo A ilha do tesouro, no est? 
 Estou. 
 E est gostando? 
 Muito  respondi, num tom quase de provocao, j me preparando 
para uma certa gozao que sempre surge quando as pessoas 
descobrem que eu adoro ler. 
 Eu tambm adorei. Foi um dos livros mais empolgantes que j li 
na minha vida. Demais, mesmo... E estava h um tempo com 
vontade de comentar com algum, mas no tinha com quem. Meus 
amigos no so exatamente muito chegados a ler, sabe? 
 Sei. Minhas amigas tambm no... 
Pronto! Isso nos deu, logo na hora, um clique, que virou a maior 
ligao. Em pouco tempo, estvamos conversando animadssimos, 
como se fssemos velhos amigos. 
Fui descobrindo que o Diego (nunca que eu vou chamar de Ddi, 
imagine, Diego  um nome  prprio -to bonito...)  um cara 
inteligentssimo. Ele falou do livro de uma maneira incrvel, nem 
consigo explicar. S posso dizer que a leitura dele era 
transformadora, mas sei que isso  abusar demais desse adjetivo 
para me referir ao mesmo menino. Mas o fato  que, nas palavras do 
Diego, A ilha do tesouro deixava de ser s uma emocionantssima 
histria de piratas e virava outra coisa  um livro sobre a alma 
humana, como ele disse, sem medo nenhum de que algum 
zombasse ou dissesse que ele falava difcil. Essa  uma das 

vantagens de no se ter em volta algum como a Dbora, sempre 
disposta a rir da gente... 

 O Long John Silver  um dos personagens mais fascinantes que j 
vi  disse ele. 
"J viu, como? Encontrou com ele?", pensei em dizer, s para dar 
um palpite engraado na conversa. Mas no quis fazer piada. Em 
vez disso, s concordei: 
 ... E a gente no sabe nunca se ele vai se comportar como um 
bandido terrvel ou um cara capaz de dar uma fora inesperada ao 
Jim. 
 Isso mesmo! Ele  um vilo perigoso, mas de quem a gente  
capaz de gostar, apesar de toda a crueldade. Um cara astucioso, que 
se adapta s circunstncias... 
Diego foi comentando mais uma poro de coisas e eu fiquei 
reparando como a voz dele era agradvel, como se expressava bem, 
escolhendo palavras adequadas. Ele continuava, falando nos 
cenrios da histria: 
 ... tambm  um ponto forte do Stevenson... em todos os livros 
dele. Eu II uma aventura que se passa na Esccia e parece carregar a 
gente at as montanhas. E O mdico e o monstro? Voc j leu? 
 Ainda no. 
  dele, tambm. A mesma coisa. Parece que a gente est em 
Londres, naquelas ruas escuras, cheias de neblina, s ouvindo o som 
dos passos que se aproximam... Demais! Ele sabe construir muito 
bem a atmosfera de um lugar. A ilha do tesouro faz a gente viajar,  
incrvel! Desde o comeo, naquela estalagem junto ao mar, no meio 
da nvoa, at a praia tropical da ilha, toda ensolarada, com 
palmeiras e o barulho das ondas. 
Eu fui lembrando: 
 E o porto? E o navio com aquela tripulao de quem a gente vai 
desconfiando aos poucos? E a cano dos piratas? 
Empolgados, comeamos a cantarolar: 


Quinze homens sobre o ba do morto, 

Yo-ho-ho... 
E uma garrafa de rum... 

S que, como livro no tem melodia, ao ler os versos cada um 
imaginou uma msica completamente diferente para eles. A 
tentativa de cantar juntos pelo telefone foi um desastre. Mas um 
desastre engraado. Acabamos rindo muito, num escndalo de 
gargalhadas. 
Atrado pelo barulho, meu pai entrou na sala. Comeou a reclamar 
daquela conversa comprida, a dizer que era o segundo telefonema 
seguido da Adriana, que aquela tagarelice estava extrapolando. 
Antes que ele descobrisse que agora era o Diego, tratei de me 
despedir. 

 Vou ter que desligar. Meu pai est querendo o telefone. 
 Est bem. Outro dia a gente se fala. 
 Tchau. 
 Tchau. 
Mas sai pelo corredor com vontade de danar e cantar. Acabava de 
descobrir um amigo com quem eu podia conversar de verdade 
sobre os livros de que eu gostava. Um tesouro especial. Coisa para 
guardar bem protegido, mesmo, e no deixar pista nem mapa para 
ningum achar. 
Esses dias trouxeram ainda outra coisa dessas que mexem no 
corao da gente  uma mudana na minha relao com a Cris. J 
falei que, antes de conhecer a Adriana, a Cris era minha melhor 
amiga, mas numa amizade que nem chegava aos ps da que depois 
eu desenvolvi com a Dri. Com o tempo, tnhamos nos afastado. Mas 
aquilo que vivemos a caminho da pizzaria, com choro e consolo, 
nos aproximou de novo. 

Por isso, no me espantei quando na segunda-feira ela me deu uma 
borracha de presente, bem fofa, em forma de cachorrinho, e disse: 


 Tome, para voc. 
Agradeci e disse que era mesmo uma gracinha. Lembrei que a Cris 
tinha um cachorro maravilhoso, o Biriba, um vira-lata malhado com 
uma manchinha amarela em volta do olho esquerdo. Perguntei por 
ele amos as duas conversando sozinhas, como h muito tempo no 
amos. Ela gosta multo de bicho, Igual a mim, e isso sempre foi uma 
coisa que tivemos em comum. De repente, ela falou uma coisa que 
me Impressionou muito: 
 Todo mundo diz que o co  o melhor amigo do homem. Deve 
mesmo, porque o Biriba  o meu maior amigo. 
Um bicho? Melhor amigo? Achei aquilo melo triste. Fui levando o 
papo adiante e percebi uma coisa em que eu nunca tinha reparado: 
a Cris  mesmo uma menina muito sozinha. Sem amigas de 
verdade. Pode at ser que seja por culpa dela, com aquela eterna 
mania de riqueza. Vai ver que  isso: ela fala tudo o que vem  
cabea e as pessoas se afastam dela, porque no agentam tanta 
sinceridade junta. 
Ou ento,  porque, em todos os casos,  sempre uma verdade de 
mo-nica, como j contei  sempre para criticar, nunca para 
elogiar. No d para ter certeza da causa. 
Mas o fato  que a Cris no tem mesmo muitos amigos. Irmo, ela 
no tem mesmo. Nem primos por aqui, que a famlia dela  de 
longe, aqueles pais dela, francamente, so de matar... A nica vez 
que vi do alguma ateno  filha foi aquela vez na pizzaria, depois 
de eu ter me metido, telefonando com uma conversa que nem era 
bem jade. Mas que teve um efeito incrvel: a me apareceu, a Cris 
ficou contente e ns voltamos a ficar amigas. 
Mesmo sem ser uma amizade assim igual  minha com a Dri, 
sempre deve valer a pena. Pelo menos em algumas coisas devo ser 
melhor do que o Biriba  embora reconhea que, com toda certeza, 
tenho outras qualidades dele, tipo ficar ao lado em silncio, 
abanando o rabinho e concordando com tudo, ou ter fidelidade total 
e Icao exclusiva. 

De qualquer modo, por tudo isso, resolvi incluir a Cris no tal grama 
de passar a tarde de sbado no shopping. Combinei com ela, adorou 
a idia  o que no chegou a ser uma surpresa. Quem no gostou 
nada foi a Dri. E isso me surpreendeu. 

 Agora vai ser assim, ?  foi a reao dela.  Vai carregar a Cris 
para todo lado? 
_ No  para todo lado, Adriana. S chamei para ir com a gente ao 
shopping uma vez. 

 Mas ela vai atrapalhar nossa conversa. A gente no pode falar 
nada mais secreto na frente dela. No  como quando estamos 
sozinhas, as duas. 
 S que a gente no vai estar sozinhas. A Rafaela tambm vai, esqueceu? 
Mas a Rafaela  minha 
amiga, j era antes. E 
agora  de novo, a gente 
conversa toda hora por 
telefone, ela sabe da 
minha vida toda. 
Eu j tinha reparado que 
nesses dias a Dri estava 
me telefonando bem 
menos. Ento era por 
isso: estava toda hora de 
papo com a Rafaela! 
Mais uma razo para eu 
chamar a Cris. Se ela 
podia, eu tambm 
podia. Insisti: 



 E a Cris tambm j era minha amiga, desde antes... 
 Tudo bem, se voc faz questo...  concordou a Dri. At que foi 
simples. Grande amiga! 
No sbado de manh, me aprontei toda (a esta altura voc j sabe 
como  meu troca-troca de roupa na hora de sair) e depois ainda 
tive que passar por uma sesso de arrumao de quarto, porque 
minha me estava implacvel. Enquanto guardava as ltimas 
coisas, ela chegou junto  porta do quarto e disse: 
 Tatiana, tem arroz e um pastelo de frango pronto na geladeira,  
s esquentar... E j deixei a alface lavada; se voc quiser salada, 
tempere na hora. 
Levei um susto. Ela ia sair? Atrs 
dela, meu pai completou: 
 Estamos indo a um churrasco na casa do Freitas, mas no fim da 
tarde estamos de volta. Voc vai ficar em casa? 
 Eu combinei de ir ao shopping...  gemi. 
 Est bem, pode ir. A que horas volta? Com quem?  autorizou 
ele, todo condescendente. 
 Me, voc disse que me levava...  fui comeando a argumentar 
mas j sabia que no ia funcionar. 
 Pois , mas eu no sabia que seu pai tinha outro programa  
respondeu ela, meio sem jeito. 
 No d para deixar a gente l, no caminho? 
Ela ainda tentou, vagamente, mas no, no dava. Meu pai no 
concordou. ramos quatro, no havia lugar no carro. Alm disso, 
eles j estavam atrasados. E a casa do Freitas, com seu programa de 
piscina e churrasco, ficava para o lado oposto. 
Ainda insisti, ensaiando um certo protesto: 
 Mas eu combinei com as minhas amigas... No  justo, a gente 
estava contando com isso. 

 Pois descombina  cortou ele.  Deixa para outro dia. O 
shopping no vai sair 
do lugar. 
J na porta da rua, 
minha me ainda 
sugeriu: 
 V se a mede uma 
delas pode levar... Se 
for com elas, pode ir. 
Deixe s um bilhete 
para me avisar. Tchau. 
De uma hora para 
outra? Num sbado? 
Me 
da Dri ou da Cris? 
Nunquinha, eu tinha 
certeza... 
Corri para o telefone. Dei a pssima notcia  Dri, mas ela nem 
parecia estar se importando muito. Disse que, ento, a Rafaela e ela 
iam aproveitar para botar uns assuntos em dia. Tinham pegado 
duas fitas de vdeo na locadora. Se eu quisesse passar l mais 
tarde... 
Liguei para a Cris. Ocupado. Tentei outra vez. Ocupado. Fiquei tentando 
e sempre dava ocupado. Algum devia estar na Internet. 
Resolvi passar l e falar direto. Era a um quarteiro da minha casa, 
num instante eu estava de volta. 
Foi uma tima idia. Ela ficou to chateada quanto eu. Mas demos a 
maior sorte: a me dela estava saindo naquele exato minuto e disse 
que dava uma carona pra gente at o shopping. E podia ir buscar no 
fim da tarde, porque estava mesmo precisando ir comprar um 
presente para um casamento! Foi demais! Ainda bem que eu estava 
com o dinheiro no bolso da cala. Nem precisei voltar em casa. Quer 

dizer, ainda tentei  para deixar um bilhete. Assim como tentei 
incluir a Dri e a Rafaela no programa. Mas no deu: 

 De jeito nenhum  disse a me dela.  Estou indo ao supermercado 
para as compras do ms, e no quero ir tarde, que fica 
muito cheio. Se quiserem ir comigo,  agora, que j estou de sada. 
S d tempo para voc telefonar rapidinho para casa e avisar. 
Nem isso deu. O pai da Cris continuava na Internet. O jeito foi ligar 
do shopping logo que chegamos e deixar um recado para meus pais 
na secretria eletrnica. Mas depois disso, todos aqueles corredores 
cheios de gente e de lojas estavam  nossa espera. No para fazer 
compras, que a gente no tem essa grana toda para sair por a se 
enchendo de coisa. Mas vimos multa vitrine, tomamos sorvete, 
folheamos livros numa livraria (acabei de ler um lbum do Asterix 
que eu tinha comeado outro dia noutra livraria), experimentamos 
roupas em uma poro de lojas diferentes, encontramos um pessoal 
do colgio e fomos juntos ver as novidades numa loja de CDs... 
Depois, comprei um prendedor de cabelos lindo. E a Cris encontrou 
uma canetinha que estava procurando h um tempo. No final, 
ainda fomos a um cinema e lanchamos. Foi timo! 
Quando voltei para casa, meus pais ainda nem tinham chegado. E 
meu recado estava l, comportadinho,  espera deles. 
Deu tudo certo. Um dia que comeou mal mas acabou sendo um 
sbado perfeito. 
J o domingo... 
Bom, bastou eu contar  Dri que tinha ido ao shopping com a Cris, 
para desencadear uma tempestade. Quer dizer, no foi exatamente 
uma coisa direta feito uma chuvarada caindo. Mas comeou a se 
armar algo estranho e ameaador, como umas nuvens escuras que 
vo se juntando devagar no cu, umas rajadas de vento que sopram 
de repente, mas de uma hora para outra parece que sossegam 
primeiro, ela ficou furiosa, dava para perceber, mas no brigou 
comido. Veio cheia de ironias: 

 Voc est mesmo achando que vou acreditar nessa sua histria? 
Depois, comeou a insinuar que eu tinha feito de propsito, que 
desde o comeo j tinha combinado tudo com a Cris, s para deixar 
ela e a Rafa de fora. Em seguida, foi puxando umas reclamaes l 
do fundo, dizendo que agora eu no ligava mais para ela, s queria 
saber da Cris, que ela estava reparando multo bem que desde a final 
do [orneio eu estava esquisita, no a tratava mais como minha 
melhor amiga, uma poro de coisas assim. Mas  medida que 
falava, mudava um pouco. Cada vez que, para mostrar que no era 
verdade, eu usava um argumento que envolvesse a Rafaela, a Dri 
ficava mansinha. Quando ela disse que no fim do jogo eu tinha Ido 
comemorar com a Cris, tive que responder: 
 Adriana, no  possvel voc ter ficado chateada com isso, foi 
praticamente o colgio todo pra pizzaria... Pelo menos, quem quis 
ir. O Alcides chamou todo mundo que estava em volta. E voc disse 
que no l porque queria ficar com a Rafaela esperando a me 
dela... J esqueceu? 
 Bom, mas ai era um caso especial. Eu tinha ficado o maior 
tempo sem encontrar com ela... 
 Tudo bem, no estou reclamando de nada. Voc  que puxou o 
assunto... 
 Est certo... 
Ficou mais calma. Mas da a pouco disse que na quarta-feira, quando 
eu quis conferir at que pgina tinha que estudar para o teste de 
Geografia, telefonei para a Cris  no podia mesmo conferir com a 
Dri, que nem  da minha turma, mas isso ela nem levou em conta. E 
que, a tarde toda, no liguei para ela, Adriana, nem uma vez. 
 Isso  o que voc pensa. Tentei mais de vinte vezes e estava 
sempre ocupado. Depois voc disse que estava falando com a 
Rafaela. 
 Mas ser que voc no podia ter insistido? 

 Mais do que insisti? S se fizesse uma linha direta, um daqueles 
telefones vermelhos que no desligam. Mas ai no ia poder, porque 
o seu ia estar grudado no da Rafa. 
Ela voltou a se explicar da mesma maneira: 
 Mas, Tti, ser que voc no entende? Fiquei de mal com ela uns 
dois anos, agora preciso mostrar que nossa amizade no mudou. 
 E a nossa, Dri? No est mudando? 
 Est, sim. Voc agora s quer saber da Cris, aquela falsa. 
Essa no! Eu tinha que protestar! 
 Voc me desculpe, Adriana. A Cris pode ter milhes de defeitos, 
e tem, como todo mundo. Mas se tem uma coisa que ela no ,  
falsa... 
 Est vendo s? Vai logo defender a coitadinha... Viu o que voc 
est fazendo, Tti? Agora voc j est brigando comigo por causa 
dela. A que ponto chegamos... 
Nem vou reproduzir tudo, porque voc j deve estar achando essa 
conversa chatssima. Se consola, pode ter a certeza de que eu 
tambm j estava farta. S dei uns exemplos, para voc sentir o 
clima. E entender que, evidentemente, olhando as coisas dessa 
maneira, a Adriana estava tirando do nada uma grande cena e 
inventando na cabea dela uma histria de que eu estava traindo 
nossa amizade e que tinha deixado ela e a Rafa para trs, porque 
no queria ir ao shopping com elas, para no me atrapalharem com a 
Cris. Foi muito chato, e me deu um trabalho para desmanchar essa 
impresso  o que me custou vrios telefonemas e uma quantidade 
infinita de broncas de meu pai. 
Mas valeu, porque na segunda-feira, no colgio, a Dri estava de 
novo normal comigo. Ficamos juntas no recreio, voltamos juntas 
para casa, tudo no melhor dos mundos, fazendo planos para o fim 
de semana em Santa Helena. 

Alis, o fim de semana tambm foi legal. O lugar era lindo, tinha 
mil coisas para fazer o tempo todo. Ns trs nos demos muito bem, 
e no domingo ainda apareceu um tio da Dri com os filhos  dois 
meninos e uma menina, gente fina. O mais velho, Gilberto, at que 
bem bonitinho. Jogamos vlei, tomamos banho de cachoeira, 
andamos a cavalo. 

Tudo devidamente documentado pela Dri que tinha ganhado uma 
cmera fotogrfica de presente da av e no parava de tirar fotos o 
tempo todo. At de madrugada, eu acordei de repente com um flash 
minha cara  as duas estavam morrendo de rir, tinham tirado um 
retrato meu dormindo. E sou obrigada a reconhecer que devia estar 
mesmo muito engraada, e assustadora  com o aparelho mvel 
que estou usando nos dentes e toda despenteada. 
Voltamos tarde no domingo, cansadas, mas satisfeitas. Era timo 
ver que o clima ruim j tinha passado, e agora minha amizade com 
a Dri navegava outra vez em guas serenas. 
Fiquei feliz. Isso para mim era o mais importante de tudo. Quanto 
mais o tempo passa, mais eu confirmo que amizade  uma das 
coisas mais importantes na vida da gente. Um verdadeiro tesouro. 
Tem toda razo aquela cano que diz: 

Amigo  coisa pra se guardar Do 
lado esquerdo do peito. 

De minha parte, pretendo guardar mesmo. Como algo muito 
precioso. Debaixo de sete chaves. 


6. AMIGO DO REI 
Umas duas semanas depois, o grupo de teatro do Anita ia comear a 
se preparar para uma festa de fim de ano que j pode se chamar de 
tradicional. Uma verdadeira superproduo conjunta com o pessoal 
da Ana Nri. Quer dizer, cada escola ensaia os seus nmeros 
separadamente. 
Mas a 
apresentao 
mesmo a gente 
faz num s 
espetculo, no 
nosso auditrio, 
com as famlias e 
os pais reunidos. 
Fica uma coisa 
bem integrada. 
Ainda mais 
porque, em geral, 
um 

dos nmeros que 
eles trazem  e acaba sempre ficando para a grande apoteose final 

  uma roda de samba maravilhosa, cheia de improvisos e 
desafios. E como ningum resiste, termina sempre um monte de 
pas, alunos e professores das duas escolas subindo ao palco para 
cantar tambm, inventando na hora os versos que vo responder ao 
que j se ouviu pouco antes. 
Basicamente, porm, nosso espetculo nunca  de improviso e 
precisa de muito ensaio. Isso sempre d a maior discusso, at a 
gente resolver o que vai fazer, que pea vai Contar. Precisa ter 
muitos personagens, e variados, para muitos alunos poderem 
participar  de preferncia, de sries diferentes. Mas no pode ter 

texto demais para cada um decorar, porque nunca h muito tempo 
para ensaiar, e j  no fim do ano, tem as provas,  preciso estudar... 
Resultado: sempre acabamos escrevendo uma pea, ns mesmos, 
para encaixar todas as nossas necessidades. Criao coletiva, sabe 
como ... Quer 
dizer, depois de 
horas de reunio 
e debate, a gente 
faz igualzinho ao 
ano anterior  e 
passa a decidir o 
tema sobre o qual 
vamos pesquisar, 
escrever e 
trabalhar nesse 
ano. 
Mas dessa vez, j 
sabendo que 
sempre acontecia 
isso, eu tinha me 
dado ao trabalho 
de pensar um 
pouco no 
assunto, desde muito antes da reunio. Por isso, quando chegou a 
hora, enquanto surgiam propostas de todo lado (um espetculo 
musical, um grande nmero de dana, um auto de Natal, a 
remontagem da pea do ano passado, e nem lembro mais o qu), 
acabei dando minha sugesto: 

 Sei l, pensei no seguinte:  uma festa conjunta do Anita Garibaldi 
e da Ana Nri, certo? 
 Certo  concordou o Clvis, que  o professor de Portugus e 
coordena toda essa parte de teatro, escrita e atividades dramticas. 
 E so duas escolas com nomes de mulher, no ? 

 ...  confirmou ele, com cara de quem no fazia a menor idia 
de onde eu ia chegar. 
 Bom, eu no sei se elas viveram no mesmo lugar e na mesma 
poca, mas talvez a gente pudesse criar uma pea em que as duas se 
encontram. Acho que todo mundo ia ficar interessado. 
Ele olhou para mim com um ar pensativo, e disse: 
 Sabe que no  m idia? Fiquei toda orgulhosa. Ele pensou um 
pouco mais e continuou: 
 Mas dar um jeito para que essas duas 
se encontrem frente a frente pode ser uma construo teatral muito 
complicada. Talvez a gente possa fazer uma coisa diferente, no sei 


o que vocs acham. Montamos um espetculo sobre mulheres na 
Histria do Brasil, com pequenos esquetes sobre cada uma. Ai 
falamos da Anita Garibaldi, da Ana Nri, e tambm de outras, como 
Joana Anglica, Maria Quitria... Assim vamos ter muitos papis 
femininos bons, e tambm masculinos, porque elas viveram num 
mundo em que estavam cercadas de homens em todos os cargos 
importantes. Podemos comear fazendo uma lista de outras 
mulheres que poderiam entrar no espetculo. 
 A Chiquinha Gonzaga...  sugeriu Carla, sempre multo ligada 
em msica popular. 
 A Princesa Isabel...  lembrou algum. 
 Maria Bonita, mulher de Lampio... 
E a Gilda, que  professora de Histria e se orgulha de ser feminista, 
logo se animou: 
 Mas  uma idia tima! Tem uma poro de outros nomes: a 
Bartira, que  outra ndia, e mais Ana Pimentel e Branca Duarte, no 
incio da colonizao, duas mulheres de donatrios que tiveram que 
Ir  luta para se estabelecer e construir a vida numa terra hostil. 
Afinal, nenhuma delas veio para c porque quis, sempre foram os 
mandos que ganharam as terras porque eram amigos do rei. Elas 
no tinham escolhido uma vida to dura, mas tiveram que vir e 
depois ficaram aqui, criando a famlia com todo o sacrifcio... E, em 

muitos casos, foram elas que realmente criaram e desenvolveram os 
ncleos de colonizao. 
Eu no tinha a menor idia de quem eram essas pessoas a quem ela 
estava se referindo, mas, pelo jeito, amos ter que deixar para 
perguntar depois, porque a Gilda continuava, falando com o Clvis: 

 E alm dessas guerreiras no Sul e na Bahia, que voc citou, h 
tambm outras heroinas que resistiram a tentativas de invaso, 
como Maria Ortiz, contra os holandeses, e Lusa Grmalda, contra os 
corsrios ingleses, no Esprito Santo. E vrias ex-escravas que 
participaram da resistncia no Quilombo dos Palmares. Podem 
deixar que eu organizo o grupo de pesquisas... 
Ficou todo mundo animado, distribuindo trabalho at a reunio na 
semana seguinte. No final, o Clvis fez questo de me 
cumprimentar de novo pela idia. 
Sai do auditrio toda orgulhosa. Meio convencida, mesmo. To 
confiante que at enfrentei a Dbora. Porque ela tem sempre que 
estar em primeiro plano, no foco de todas as atenes, e devia ter 
ficado com raiva de mim, estar morrendo de inveja dos elogios que 
eu recebi Na certa foi por isso. Quando estvamos entrando no 
ptio, voltando da reunio, ela deu o bote. Mas como  uma 
vlborazinha, nunca ataca de frente. Procurou me ferir no meu ponto 
fraco  minhas amigas. Reparou que a Cris e a Dri estavam juntas, 
 minha espera, e fulminou, com aquele seu sorrisinho cnico e 
superior: 

 Hummmm, pelo jeito as duas carentes esto se dando muito 
bem... 
 S a inconveniente  que est sobrando...  respondi na hora. 
Nem sei como tive coragem e presena de esprito para pensar 
isso, mas fiquei furiosa de ver que a Dbora queria atingir minhas 
amigas  toa, tocar mesmo na ferida de cada uma, na dor mais 
funda que elas tm. S pelo prazer de agredir. Acho que ela 
percebeu que eu era at capaz de bater nela, de tanta raiva que 
estava sentindo nesse momento, porque nem ficou por ali 

prolongando a implicncia, como sempre costuma fazer, mas tratou 
logo de ir embora sem nenhum comentrio a mais. 
Quando ela se afastou, a Dri no disse nada, mas a Cris comentou: 
Puxa, voc estava mesmo afiada, hein? Gostei de ver... Com fora 
total! 
Adriana continuou em silncio. Fomos saindo do colgio, mas ainda 
ficamos um pouco paradas na calada, esperando mais um pessoal 
que s vezes tomava o mesmo nibus que a gente para voltar para 
casa. Alguns alunos que iam saindo me cumprimentavam pela 
idia. At o nojento do Fbio parou para falar  mas  claro que 
no deu fora nenhuma, s implicou: 

 Quer dizer que as fofoqueiras da escola vo se exibir num 
espetculo... Vai ser mesmo uma gracinha. Ser que essa galeria de 
personagens femininos vai ser mesmo completa? Vai ter a 
pirralhinha metida? A defensora dos fracos e oprimidos? A 
papagaia que sai repetindo tudo o que ela acha que ouviu? No 
esqueam da fedorenta, hein? 
Eu j estava com vontade de sair atrs dele para acertar uma boa 
livrada na cabea  de preferncia com o livro de Matemtica, que 
 um tijolo. Mas a Cris segurou meu brao: 
Deixa pra l, Tti. No se rebaixe. E a Adriana acrescentou: 
 Eu tenho medo  de que isso seja s uma amostra do que pode 
vir por a... 
 Como assim? No entendi  estranhei. 
 Eu acho que voc se exps muito, dando uma sugesto dessas. 
As pessoas podem ficar mesmo meio agressivas, pensando que voc 
quis se exibir para a Gilda e o Clvis. Como se voc estivesse 
sempre querendo se mostrar, afinal voc est mesmo em todas  
disse ela.  Ou ento pode parecer at que quis atrapalhar os 
planos dos outros. 
 Que pessoas? Que planos?  perguntei.  D para explicar 
melhor? 

 No sei direito, Tti. Estou falando s porque sou sua amiga. 
Quero te proteger. 
 Me proteger de qu? No estou entendendo, Dri... 
 No quero que as pessoas fiquem com raiva de voc, te achando 
metida. No viu o Fbio? 
 O Fbio  outro departamento, no tem nada a ver. Ele est com 
raiva de ns trs desde aquele dia que a Cris foi tomar satisfao 
com ele, das coisas que ele disse sobre a Carla, na SUA frente, Dri. 
Eu no tenho nada a ver com isso. 
 ? Mas foi com voc que ele veio falar...  insistiu ela. 
 Comigo, no. Com a gente. 
 Ih, vocs agora vo ficar discutindo na porta do colgio, ?  
interrompeu a Cris. 
Ouvindo isso, a Adriana cortou a conversa: 
 Desculpe, eu no estava querendo discutir com ningum, ainda 
mais com minha melhor amiga. S quis dar um toque. 
 E por qu? Ainda no consegui entender... 
Ela explicou, com calma: 
 Tti, no me leve a mal. Mas  que voc est sempre apare do, 
chama muito a ateno. Estava na equipe campe do vlei, ganhou 
medalha e tudo. Faz parte dos contadores de histrias que vo ler 
para as crianas da Ana Nri.  metida a escrever no jornal da 
escola. Foi selecionada no concurso de literatura e se classificou 
para a fase finai' Agora quer tambm resolver como vai ser o 
espetculo do fim do ano? Muita gente pode no gostar... Podem 
ficar com raiva, achar que e Tatiana demais, afinal de contas o Anita 
tem um monte de outros alunos que nem aparecem. 
 Como quem, por exemplo? 
 Como as pessoas que danam bem mas no sabem jogar vlei 
nem gostam de passar o dia com o nariz metido num livro... 
Acho que foi esse "metido" que me fez acordar. "Nariz metido num 
livro", uma expresso sada da mesma boca que um segundo antes 

tinha dito que eu era "metida a escrever no jornal". Minha melhor 
amiga no dizia que eu tinha jeito para escrever e gostava de ler, 
mas deixava escapar que, no fundo, achava que eu... o que mesmo? 
Me metia onde no era da minha conta? Sei l, fiquei meio chocada, 
magoada. Nem consegui descobrir direito o que estava sentindo. 
Fiquei quieta, decidida a pensar mais em tudo aquilo. 
Minha primeira reao era negar, garantir que eu estava s querendo 
participar das atividades do colgio com todo mundo, como 
sempre fiz. Mas a Adriana era minha melhor amiga. Sempre me deu 
fora, nunca deixou de estar ao meu lado nas horas difceis. Se ela 
estava agora dizendo uma coisa dessas, bem podia ter razo. Eu 
tinha que analisar melhor a situao. Ser que eu estava mesmo 
sendo meio exibida e prejudicando os outros? Sem querer, claro, 
sem perceber... Principalmente, podia estar atrapalhando gente 
como ela, que dana bem mas io joga vlei direito e no  muito 
chegada  leitura, por isso nunca ia ter idia para uma pea como a 
que eu tinha sugerido. 
No nibus, a caminho de casa, continuei em silncio. As duas 
conversavam sem parar e a Dri dizia que um espetculo de dana ia 
ser muito mais interessante, divertido, leve, sem ficar com cara de 
aula de Histria, sem precisar ningum fazer pesquisa... Lembrava 
que ela j tinha at uma coreografia pronta para um nmero-solo, 
que ela estava falando h meses para apresentar na festa da 
academia, e podia perfeitamente encaixar num espetculo geral, 
dava at para aproveitar o fourino. Era mesmo uma pena que eu 
no tivesse nem dado a chance ara que o pessoal da dana se 
manifestasse, fui logo dando um jeito para que fosse um espetculo 
cheio de texto mas sem dana. Claro, era compreensvel, afinal eu 
no sei danar mesmo... 


No sei, no. 
Fui ouvindo 
aquela 
conversa e 
comecei a 
sentir um 
mal-estar que 
nem consigo 
explicar. No 
era uma coisa 
fsica, do 
corpo. Era em 


minhas emoes, no sei bem onde isso se localiza  corao, alma, 
memria... O nibus seguia seu trajeto, percorria as ruas de 
sempre, freava aqui, acelerava ali, e eu nem prestava 
ateno. Estava toda voltada para as lembranas que faziam um 
trajeto interior, percorrendo paisagens dentro da minha cabea. O 
percurso de uma amizade. 
Cheguei em casa to chateada que nem quis almoar. Fui para meu 
quarto, me tranquei, fiquei com uma vaga vontade de chorar sem 
saber por qu. Achei melhor ouvir uma musica, ler um livro, ligar a 
televiso, fazer qualquer coisa para me distrair. Quando estava 
escolhendo um CD, o telefone tocou. Quem sabe no era a Adriana 
para se explicar e pedir desculpas? Ah, sim, porque a culpa de eu 
estar me sentindo assim era dela, foram os comentrios dela que 
cortaram todo o meu barato e me derrubaram. Eu tinha sado da 
reunio toda animada e agora estava me sentindo um lixo. 
Mas no era a Adriana. Era o Diego! 

 Que bom que voc j chegou... 
 De onde? 
 Do colgio, claro. Acabei de passar de nibus em frente ao Anita 
e vi voc na calada com um monte de gente. 

 ... Cheguei agorinha mesmo. A gente teve uma reunio e, na 
sada do colgio, estava todo mundo comentando o que aconteceu. 
 Mas aconteceu alguma coisa? 
 No... Foi s uma reunio de rotina para resolver sobre a festa de 
fim de ano... 
 Ah... 
Eu estava meio sem assunto. Queria muito conversar com o Diego, 
sempre acho timo falar com ele. Mas no sabia o que ia dizer. E ele 
tambm ficou calado do outro lado, era meio esquisito. Ainda mais 
no telefone. Ainda bem que ele se manifestou. Muito sem 
originalidade, s dizendo meu nome: 
 Tti... 
 O que ? 
 Escute, eu fiquei querendo te dar um toque, mas no sei se devo. 
Por favor, no me leve a mal... 
Al, essa no! Ele tambm? Ser que esse era meu dia de levar toques 
de amizade? s vezes eu gosto de olhar meu horscopo nas revistas 
mas depois no lembro nada. Devia haver uma conjuno astral 
terrvel no meu mapa para esse dia: "Cuidado com os amigos, para 
no se machucar". Mas que bobagem! Com amigo no  preciso ter 
esses cuidados. Amigo no machuca a gente. 
Pensei essas coisas todas, mas no disse. S concordei: 
 Pode falar... 
  porque eu vi voc conversando em frente ao colgio com um 
garoto que conheo. E no sei multo bem como  sua relao com 
ele. 
 Minha relao, como? Que garoto?  repeti, tentando entender. 
 Um magrelo, alto, chamado Fbio. 
 Ah, sim... 
 Vocs so amigos? Ele  seu namorado? 
 Aquele nojento? Deus me livre! O que significava aquilo? O 
Diego estava me ligando s para saber 

se eu namorava o Fbio? Ser que queria saber se eu tinha algum 
namorado? 

 Ah, bom, ento posso falar  continuou ele.  Porque eu 
queria lhe avisar para abrir o olho com esse cara. Ele no presta. 
 Sei muito bem, pode deixar. Na verdade, estvamos quase 
brigando. De verdade, at fisicamente. Eu estava com vontade de 
acertar o livro de Matemtica na cabea dele, mas minha amiga no 
deixou. 
 Por qu? O que foi que ele fez? Se no for Indiscreto perguntar... 
Era. Eu no podia contar sem falar da histria toda da Carla, sem 
dizer que o Fbio tinha comentado que ela era feia e fedorenta. E a 
Carla era prima do Diego! Mas tambm era falta de educao se eu 
dissesse que era indiscreto perguntar... resolvi ser o mais franca 
possvel, sem entregar nada. 
 Diego, desculpe, mas no vou poder contar, porque envolve 
segredos de outras pessoas. 
 No, no, tudo bem, eu entendo  disse logo, melo sem graa. 
 Eu nem devia ter perguntado. S quis foi te avisar sobre esse 
cara. No d para confiar nele. No quero ficar falando, no posso 
dar detalhes porque  como voc acaba de dizer  envolve outras 
pessoas. Mas cuidado com o Fbio... 
 De onde  que voc conhece ele? 
 Da casa do Vtor. Ele vive l... 
 Eu sei. 
Diego deu uma risadinha, daquelas que me fazem logo ficar imaginando 
o rosto dele transformado por um sorriso. 
 Alis, o tio Vic botou um apelido meio engraado nele, mas no 
pode contar para ningum, hein? 
 Tio Vic? Vic Bellini? 
 . Esqueceu que ele  meu tio? 
 Desculpe, eu sabia, mas s achei engraado. E qual foi esse 
apelido que ele inventou? 

 Eu s te conto porque vi que voc sabe guardar segredo. Quer 
dizer, o Fbio at conhece o apelido, mas no sabe que quem 
inventou foi o tio Vic. Pensa que foi o Penumbra. 
 Qual ? 
 Fabinho Arroz. 
 Por qu? 
  por causa dessa mania dele de grudar no Vtor, ficar sempre 
em volta do pessoal da banda, falar como se fosse "intimo do Vic 
Bellini", querer ser metido a amigo de artista, essas coisas... O tio Vic 
chama o Fbio de arroz porque diz que ele est sempre 
acompanhando, mas nunca  o prato principal. 
Foi a minha vez de rir. Ele continuava: 
 Tem gente que  assim: s quer ser amigo do rei. Mas no 
entendeu direito o poema do Bandeira. 
 Que poema? Eu no conheo... 
Ento comecei a descobrir mais um lado lindo do Diego. Eu j sabia 
que ele gosta de ler. Mas no imaginava que ele conhecesse poesia 
to bem. Porque em seguida ele disse para mim pelo telefone um 
poema Inteirinho do Manuel Bandeira, chamado Vou-me embora pra 
Pasrgada. Depois ainda explicou que o poeta era muito doente, teve 
tuberculose na adolescncia e que naquele tempo no havia 
antibitico, as pessoas quase sempre morriam quando tinham essa 
doena. E que ele foi desenganado, teve que tirar um pulmo e ir se 
tratar na Sua, depois ficou esperando morrer, e proibido de fazer 
uma poro de coisas. Acabou vivendo at depois dos 80 anos. Mas 
num dos poemas que fez, esse que o Diego disse para mim no 
telefone, Manuel Bandeira inventou esse lugar Imaginrio perfeito 
onde ele podia fazer tudo: andar de bicicleta, montar em burro 
bravo, ir ao parque de diverses, tomar banho de mar, namorar 
quem quisesse, onde quisesse, tudo... Porque l ele era amigo do rei. 
Quer dizer, tinha um amigo com o poder de adivinhar seus desejos 
e dar a ele tudo o que tivesse vontade, todas as coisas que para ele 

eram impossveis, mas que, graas a esse amigo, no Iam fazer mal 
nenhum. 

 Meu professor explicou que Pasrgada era o nome de uma antiga 
cidade da Prsia. De certo modo, essa histria de dizer que era 
amigo do rei acabava sendo mais ou menos como se o Bandeira 
dissesse que era amigo de um gnio que satisfazia seu desejos. 
 E onde  que o Fbio entra nisso?  perguntei. 
 O Fbio Arroz? Eu acho que ele faz parte da turma que confunde 
tudo, que no sabe o que  amizade e que se aproxima dos 
poderosos porque  interesseira. Gente que pensa que ser amigo de 
rei,  ser inimigo da lei. Que quer se dar bem, s ficando em volta de 
quem  famoso ou tem poder. 
Foi timo comear a discutir amizade com o Diego. Porque dali a 
pouco eu estava contando a ele como tinha me chateado com o 
comentrio da Dri na sada da reunio. E como eu achava que a Dri 
agora andava implicante comigo, me criticando por causa da Cris, 
quando na verdade ela  quem estava se afastando de mim por 
causa da Rafaela. 
 Mas no foi voc que reaproximou as duas? 
 Eu mesma. Voc at viu. Foi l no dia do torneio. 
 E voc fica zangada porque agora as duas esto juntas? 
 Eu, no...  comecei a dizer, mas corrigi.  Quer dizer, s um 
pouquinho, s vezes. 
 , eu acho que deve ser natural... 
 Mas ela fica zangada quando estou com a Cris. 
 Voc gosta dela, no gosta? Sabe que ela  sua amiga, no sabe? 
Ento tenha um pouco de pacincia, ela  mais imatura. Deixa o 
barco correr um pouco, para ver como  que fica. 
 ... pode ser... 
Mas tem uma coisa, Tti, que a minha me vive dizendo, e pode 
ser til. 
 O qu? 

 Que todo mundo diz que  na hora da desgraa que se conhece 
um amigo, mas no , no.  na hora do sucesso. Quem for capaz de 
ficar alegre de verdade com o sucesso do amigo, sem sentir inveja 
nenhuma, ento  porque gosta mesmo. 
Era uma idia interessante, que nunca tinha me ocorrido. Estava 
sendo timo esse papo com o Diego. Perguntei um pouco sobre ele: 
 Voc tambm tem um grande amigo? No se Incomoda se ele de 
repente comear a andar com outro? 
  diferente... Tenho muitos amigos ao mesmo tempo, prximos, 
mas cada um de uma maneira diferente. S que acho que  assim. A 
ente no pode querer ser dono das pessoas. Nem cobrar demais de 
quem  amigo. 
Continuamos a conversar cada vez mais animados, sobre o que  ser 
amigo mesmo, de verdade. E tive uma idia: 
 Sabe? Vai ter a final do concurso de literatura l no colgio e 
preciso escrever um texto. Estava sem saber que tema escolher. 
Agora j sei: a amizade. 
 Ento vou te dar esse poema do Bandeira. Se voc quiser citar. 
 timo! Obrigada. Criei 
coragem e propus: 
 No quer vir aqui trazer? Acho que ele tambm criou coragem 
porque respondeu imediatamente: 
 Pode ser agora? Assim a gente continua a conversa. 
 Claro... E voc me ajuda com o texto. Sabe o meu endereo? 
 Claro,  a casa do Frajola... Conheo o prdio. S no sei o andar. 
Eu disse, ele anotou, nos despedimos. 
Em menos de meia hora, o Diego chegou. Meu irmo at levou um 
susto, quando viu o Didi entrar, dizendo que vinha fazer um 
trabalho de escola junto comigo. Era a primeira vez que um menino 
vinha estudar comigo em minha casa. E, como antes de ser amigo, 
era um menino  at que bonitinho, com um olhar interessante e 
um sorriso transforma dor  eu tive que correr para me arrumar. 
Quase no deu tempo, de to rpido que ele veio. Mas consegui. 

Quando ele chegou, me deu o poema, que comeava assim: 

Vou-me embora pra Pasrgada 
l sou amigo do rei... 

Talvez inspirada pelos versos de Manuel Bandeira, resolvi que ia 
partir para a poesia. Fazer um poema sobre a amizade. 
Fiquei quase louca, procurando imagens e rimas. Na primeira 
estrofe, consegui rimar amiga com boa liga e com cantiga, mas dai 
para a frente s me ocorriam palavras como inimiga, intriga, e at 
briga. Ou ento me vinham  cabea barriga, bexiga, formiga e outras 
palavras assim, que cortavam qualquer inspirao. 

 Tambm pode ter uns verbos  sugeriu o Diego.  Siga, diga, 
prossiga, consiga... 
Tentei seguir a sugesto. Mas intriga e inimiga eram muito fortes. 
Levavam o poema para um lado negativo que eu queria evitar. 


 Que tal experimentar fazer uns versos mais modernos? Sem 
rima...  props o Diego. 
Era uma boa idia. Fiquei me sentindo mais livre, mais solta. Para 
me deixar escrevendo  vontade, o Diego foi l para o quarto do R 
conversar com ele. Mais tarde, quando os dois voltaram  sala, eu 
ainda estava embatucada na frente do papel. Tinha comeado a 
fazer outro tipo de jogo de palavras, em que a amiga que surgia num 
verso ecoava em migalha em outra linha, ou esmigalhar, mais adiante. 
Continuava difcil me livrar de umas associaes negativas. Puxa, 
nunca pensei que fosse to difcil... 
Diego se sentou do outro lado da mesa, pegou uma folha de papel e 
comeou a escrever. Dali a pouco, quando eu quis saber o que era, 
ele me disse: 
  s uma lista de expresses que eu lembrei, e que falam 
sobre amizade. Se voc achar que pode ajudar,  minha modesta 
contribuio. 

Passou para mim o papel, onde estava escrito: 

Amigos, amigos, negcios  parte 
Amigo do rei 
Amigo-da-ona 
Amigo-urso 
Amigo  pra essas coisas Amigo  
coisa pra se guardar Amigo de f, 
irmo, camarada 

 Meio difcil encaixar isso num poema, voc no acha?  
comentei. 
A resposta dele foi uma pergunta: 


 E quem disse que tem de ser um poema? Voc no falou que  
um concurso de textos? De qualquer tipo? 
 Tem razo. 
E foi assim que mudei de idia novamente. 
Resolvi ento escrever esta histria, onde os meus amigos entram 
como personagens. Usar algumas das expresses da lista do Diego e 
mais outras que eu mesma descobri. Narrar detalhadamente um 
pouco do que vai nos acontecendo, enquanto construmos nossa 
amizade. 
Vou ter que falar ainda nos ltimos acontecimentos, em como me 
chateei quando descobri que a Dri e a Rafaela tinham mostrado para 
um monte de gente a minha foto dormindo em Santa Helena  
ridcula, despenteada, de cara Inchada e de boca meio aberta com o 
aparelho mvel dentro. Contar como me senti invadida e trada por 
essa foto, como pedi a elas que a destrussem, como elas riram, 
implicaram comigo e disseram que no tenho senso de humor e no 
sei entender uma simples brincadeira. Mas sei que no  nada disso, 
bem dentro de mim tenho certeza de que uma amiga de verdade, 
que se importasse com meus sentimentos, que gostasse de mim, no 


faria uma coisa dessas. Eu no mereo. E  uma injustia ainda 
querer me criticar por estar sentindo e reagindo. 
Pode ser s criancice da Dri, e, nesse caso, de repente ela vai cair em 
si, me pedir desculpas, podemos continuar ligadas por muitos e 
muitos anos. Ou, ento, o jeito vai ser encarar os fatos e reconhecer 
que a Adriana no  mesmo essa amiga maravilhosa que eu estava 
pensando, e vai ficar para trs na minha vida, como uma lembrana 
bonitinha perdida na infncia. Igual a uma chupeta ou a meu 
ursinho de pelcia que eu carregava para todo canto. Uma pessoa 
com quem me enganei, de quem gostei muito, mas que foi capaz de 
me ferir por uma bobagem. E de me fazer chorar muito, s para se 
divertir um momento e dar umas risadinhas. Como se no desse 
valor nenhum a tudo o que a gente j passou juntas, e que foi to 
bonito. Ou, ento, o erro foi meu, que dei valor demais a uma coisa 
que no tinha essa importncia toda. 
Antes eu no conseguia ver isso dessa maneira. Acho que  porque 
agora estou crescendo, amadurecendo. E no s pelo tempo que 
passa. Talvez seja por causa das conversas com o Diego, que  mais 
velho e leu muito mais.  provvel que o que mais me ajudou a 
amadurecer e compreender melhor toda essa situao tenha sido o 
fato de ter escrito sobre tudo o que aconteceu. Tive que arrumar as 
idias, pensar sobre as emoes, tentar organizar tudo. Com toda 
certeza, esse processo de escrever me ajudou muito. 
Se essa amizade vai durar, se no vai durar, s o tempo  que pode 
mostrar. Mas a gente tambm tem que ajudar. Por isso, depois que o 
texto ficou quase pronto e estou aqui, agora, relendo tudo e me 
preparando para pingar nele um ponto final, acabo de tomar uma 
deciso que eu no esperava. Mas acho que no pode ser diferente. 
E espero que voc concorde comigo. 
Fui muito franca. Contei tudo o que aconteceu  como lembro, e do 
meu ponto de vista. Mas sei que pode haver outros. Os das minhas 
amigas. E no sei se elas gostariam de ver esta nossa histria ao 
alcance dos outros. Mais que isso: tenho a certeza de que no tenho 


o direito de contar tudo e sair expondo as pessoas de quem gosto 
tanto. 
Ento resolvi que no vou inscrever este livro no concurso de 
literatura do Anita.  o mnimo que eu posso fazer pelas minhas 
amigas. Por mais que tenha levado um tempo trabalhando nele. 
No posso dar para mais ningum ler. No mximo, posso mostrar a 
algum com quem estou construindo uma amizade nova e multo 
especial  como voc. 
Se um dia eu quiser, mudo umas coisas, disfaro, misturo episdios, 
invento personagens novos, fao uma outra coisa bem diferente e 
ento, sim, posso publicar. Dando um jeito para que elas ainda se 
reconheam e possam vir conversar comigo sobre o livro, mas tendo 
cuidado para que mais ningum consiga identificar quem so. Se 
no, guardo este texto na memria do computador, quem sabe para 
voltar a ele daqui a muitos anos. Eu adoraria ganhar o concurso. 
Mas preservar a amizade  mais importante que qualquer prmio. 
O Diego outro dia citou uma frase de uma grande escritora brasileira 
chamada Clarice Lispector, que disse numa entrevista: 
Literatura? Mais vale um cachorro morto. 

No sei muito bem, mas acho que ela quis dizer que o mais 
importante de tudo  a vida, mesmo a que j passou pelo corpo de 
um animal e se acabou. A simples marca da vida, mesmo de leve, 
vale mais do que tudo. At do que a arte. 
Pode ser que, se eu fosse uma grande artista, pensasse diferente. 
Dizem que um artista tem que ter a coragem de ir fundo no que 
vive 

s sente, e se expor de verdade. Mas no sou artista. E do jeito que 
sou hoje, acho que no tenho que fazer nada disso. Concordo com a 
Clarice Lispector. Ou bem eu consigo um dia transformar esta 
histria em outra e posso publicar, deixando os outros lerem, ou 
ento tudo se acaba aqui. Se eu quiser mesmo concorrer ao prmio 
do concurso da escola, escrevo outro texto. Aproveito tudo o que j 


aprendi com este e fao uma crnica curtinha sobre a amizade, por 
exemplo. 
No  para correr atrs de um prmio num concurso de literatura 
que vou expor minhas amigas. Por elas, mesmo que nunca saibam, 
eu me disponho a modificar o provrbio que abria a lista do Diego: 


Amigos, amigos... manter  uma arte... 

Porque eu quero que qualquer pessoa com quem vivo uma amizade 
possa ter uma certeza, a todo momento, de verdade, bem no fundo: 
posso at ser apenas uma pessoa comum e sem importncia, mas 
amigo meu  amigo do rei. 

AUTORA E OBRA 

Ana Maria Machado  carioca, tem 
trs filhos e mora no Rio de Janeiro, 
cidade que adora. Mas gosta muito 
de procurar calma para escrever e 
tem um lugar secreto onde encontra 
esse silncio. Uma casinha simples,  
beira-mar, num povoado do Espirito 
Santo. Ela fica de frente para uma 
praia onde as tartarugas vm 
desovar e no meio de um jardim 



cheio de flores, beija-flores e pitangas,  sombra de amendoeiras to 
grandes que servem para orientar os barcos que voltam do mar. 
Amendoeiras to maravilhosas que nelas moram caxinguels, 
cambaxirras e bem-te-vis. Eles bem que interrompem a escritora, 
mas ela garante que no atrapalham. 
S que nem tudo  assim to calmo na vida de Ana Maria Machado. 
Ela vive viajando por todo o Brasil e pelo mundo inteiro para dar 
palestras e ajudar a estimular a leitura. Tem prtica de falar com 
muita gente, afinal, depois de se formar em Letras, comeou sua 
vida profissional como professora. Tambm j foi jornalista e 
livreira. Desde muito antes disso,  pintora e j fez exposies no 
Brasil e no exterior. 
Mas Ana Maria Machado ficou conhecida mesmo foi como 
escritora, por causa das dezenas de livros que publicou para adultos 
e crianas. Livros que venderam milhes de exemplares, receberam 
elogios dos crticos, foram publicados em dezoito pases e 
ganharam mais de trinta prmios, tanto no Brasil como em Cuba, 
Estados Unidos, Sua, Costa Rica, Argentina, Venezuela e 
Colmbia. 
Porm a autora garante que sua maior recompensa ser, sempre, um 
leitor atento, que consiga entender bem suas histrias, onde quer 
que ele esteja. Porque ela acredita que essa  a grande magia do 
livro  aproximar pensamentos, idias e emoes de pessoas que 
vivem distante, s vezes em pocas diferentes. Gente que nem se 
conhece e de repente fica como se fosse amiga por causa daquelas 
palavras escritas. 


Este e-book representa uma contribuio do grupo Livros Loureiro para aqueles 
que necessitam de obras digitais, 
como  o caso dos Deficientes Visuais e como forma de acesso e divulgao para 
todos. 
 vedado o uso deste arquivo para auferir direta ou indiretamente benefcios 
financeiros. 
Lembre-se de valorizar e reconhecer o trabalho do autor adquirindo suas obras. 


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http://www.loureiromania.blogspot.com/ 



